26 – 27 de nov. de 2026
Vitória
Fuso horário America/Sao_Paulo

Reflexões Sobre uma Experiência de Ensinar e Aprender a Prática Cultural Tradicional do Crochê

Não agendado
20m
Espírito Santo (Vitória)

Espírito Santo

Vitória

Av. Fernando Ferrari, 514 - Goiabeiras, Vitória - ES.
Relato de Experiência Cultura, Linguagens, Memória e Construção de Identidades

Palestrante

Lavinia de Souza Santos (UFES)

Descrição

Resumo: Este trabalho apresenta reflexões sobre uma atividade de extensão ministrada pelo grupo de bolsistas do Programa de Educação Tutorial Conexões de Saberes Cultura ao longo de 2026. A atividade que motivou a reflexão apresentada foi desenvolvida no âmbito do Projeto Agenda Cultural no qual os bolsistas desenvolvem estudos sobre um tema, a partir dos interesses do grupo, organizam os conhecimentos adquiridos em formato de cursos, minicursos ou oficinas e ofertam à comunidade interna e externa à universidade. A atividade ocorreu no dia 8 de junho deste ano, tratando-se de uma oficina de crochê que teve dezessete (17) participantes e nove (9) bolsistas do PET. O objetivo principal foi ensinar noções básicas do crochê, prática cultural tradicional, exercida, em sua maioria, por mulheres em todo o país. A oficina de crochê é uma entre as dez (10) oficinas que fazem parte da programação de atividades de ensino e extensão do PET Cultura para o ano de 2026. Nosso interesse por essa prática cultural tradicional se deve pelo fato de termos três (3) bolsistas que praticam o crochê com frequência tendo uma relação afetiva com a técnica e, ainda, pelos estudos que vimos desenvolvendo com foco na valorização dos saberes tradicionais e locais, bem como na concepção de ensino como uma ação de desenvolvimento do sujeito a partir do que se produz coletivamente pela humanidade. Assim, Paulo Freire, Antônio Bispo dos Santos e Dermeval Saviani fundamentam as reflexões neste trabalho trazendo-nos ao debate sobre o papel da universidade na valorização dos saberes tradicionais, locais e produzidos coletivamente.
Palavras-chave: Crochê; Valorização dos saberes tradicionais.
INTRODUÇÃO
Neste trabalho buscamos refletir sobre uma atividade de extensão ministrada pelo PET Conexões de Saberes Cultura em 2026. O PET Cultura integra os 13 grupos do Programa de Educação Tutorial (PET) da Ufes, ligado ao Ministério da Educação e financiado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) com a concessão de bolsas aos estudantes de graduação e ao tutor dos grupos, realizando atividades de ensino, pesquisa e extensão. O PET Conexões de Saberes Cultura recebe estudantes dos cursos de Artes, Arquivologia, Geografia, História, Letras e Pedagogia. A atividade apresentada neste trabalho foi desenvolvida no âmbito do Projeto Agenda Cultural, planejado anualmente a partir das possibilidades de trabalho previstas para o ano subsequente, no qual os bolsistas desenvolvem estudos sobre um determinado tema relacionado aos seus cursos de origem e ou às suas práticas culturais, embasados em referencial teórico de base decolonial. A partir do aprofundamento teórico sobre as temáticas, o grupo organiza os conhecimentos adquiridos em formato de cursos, minicursos ou oficinas e oferta à comunidade interna e externa à universidade. Nesse sentido, a oficina de crochê, que gerou nossas reflexões ocorreu no dia 8 de junho deste ano e teve dezessete (17) participantes e nove (9) petianos (modo carinhoso como denominamos os bolsistas do PET). O objetivo principal foi ensinar noções básicas do crochê, prática cultural tradicional, exercida, em sua maioria, por mulheres em todo o país. Esta oficina é uma entre as dez (10) que integram a programação de atividades de ensino e extensão do PET Cultura em 2026. Nosso interesse por essa prática cultural tradicional se justifica pelo fato de termos três (3) bolsistas que praticam o crochê com frequência tendo uma relação afetiva com a prática e, deve-se, ainda, aos interesses gerados pelos estudos que vimos desenvolvendo, com base decolonial, buscando autores brasileiros ou latino-americanos, autoras mulheres, autores negros. Nosso foco tem sido a valorização dos saberes tradicionais e locais, bem como a concepção de ensino como uma ação de desenvolvimento do sujeito a partir do que se produz coletivamente pela humanidade. Paulo Freire, Antônio Bispo dos Santos e Dermeval Saviani fundamentam as reflexões neste trabalho. METODOLOGIA
Para a realização da oficina elaboramos um material impresso que abordava a prática do crochê como parte da cultura brasileira, principalmente das mulheres, destacando o seu caráter de ancestralidade, apresentando também alguns pontos básicos que seriam trabalhados durante a oficina, para a qual disponibilizamos aos participantes agulhas e linhas para a execução das peças. O espaço da sala foi organizado de modo que permitisse às pessoas compartilharem o aprendizado com as demais, assim foram formados dois grupos organizados em mesas grandes que permitiam a disposição do material, apresentado aos participantes pelos petianos. A atividade de extensão se dividiu em três momentos: inicialmente, projetamos algumas imagens com peças de crochê e os pontos básicos para a oficina, fazendo uma relação com o material impresso distribuído. Na sequência, os participantes escolheram seu material e a petiana Lavínia demonstrou a execução dos pontos enquanto as petianas Ana Paula, Effie, Julia Suave, Julia Rozato e Maira orientavam individualmente os participantes em seus lugares. Este foi o momento mais complexo pois, exigiu de nós a habilidade de ajustarmos as orientações gerais, dadas por Lavínia às necessidades de cada pessoa. Concluímos a oficina com a apresentação de dois vídeos produzidos pelos petianos Gleidison e Raquel de entrevistas com suas avós que já praticam o crochê há muitos anos, falando sobre como aprenderam e o que o crochê significa para elas.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU DISCUSSÕES
Observamos que o trabalho de ensino do crochê, demandou de nós mais proximidade com os participantes, pois, percebemos diferentes níveis de dificuldade entre eles. Algumas pessoas apresentaram mais facilidade e constância para aprender os pontos básicos, enquanto outras pareciam mais impacientes e frustradas por não conseguirem realizar os movimentos ensinados. Nesse sentido, nos organizamos para ficarmos mais próximos dividindo o grupo de petianos entre as duas mesas, assim, circulamos pelo espaço, observando cada participante na sua execução, às vezes foi preciso pegar na mão das pessoas para corrigir movimentos e orientá las melhor. Também fizemos uma escuta ativa das dificuldades de cada um, buscando ajuda entre os petianos que já fazem crochê, para atendê-los da melhor forma. Saviani (2011, p. 13) destaca que “O trabalho educativo é o ato de produzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens”. 3 Nos baseamos ainda na ideia de Paulo Freire (1996) de que o professor também aprende enquanto ensina e que este movimento dialógico de ir ao encontro do estudante visando valorizar o seu saber, leva-o a desenvolver uma curiosidade crescente, que é essencial para a sua formação. Havíamos preparado 2 peças simples de crochê para os participantes, que não foram produzidas por falta de tempo, já que nos prolongamos ensinando os 3 principais pontos básicos (corrente, ponto baixo e ponto alto). Em nossa pesquisa para a apresentação da oficina nós aprendemos bastante coisa, como C2C (corner to corner) e pixel crochê (para tapeçaria), porém a prática coletiva do ensino do crochê nos levou a adaptar nossa proposta de ensino. Nesse sentido, podemos afirmar que ao ensinarmos o crochê àquelas pessoas, também aprendemos diferentes modos de mediar o conhecimento sobre essa prática cultural tradicional para o grupo heterogêneo de participantes que recebemos. Freire fala sobre a ação dialógica da educação e da importância de construir um ensino que seja “com” os estudantes, e não “para” eles, implicando a necessidade de se construir esse conhecimento em conjunto. Assim, nossa reflexão sobre a oficina passou pelo entendimento de que ensinar não é uma ação unilateral, como afirma Paulo Freire (1996, p. 13): “Quando vivemos a autenticidade exigida pela prática de ensinar-aprender participamos de uma experiência total, diretiva, política, ideológica, gnosiológica, pedagógica, estética e ética, em que a boniteza deve achar-se de mãos dadas com a decência e com a seriedade.” Surpreendeu-nos o grande interesse do público jovem pelo aprendizado do crochê, pois, nas últimas oficinas ofertadas pelo PET Cultura, embora tenha havido muitas inscrições, poucos compareceram. O que indica que essa prática cultural se mostra relevante e interessante atualmente. Freire (1996, p. 50) destaca “Se estivesse claro para nós que foi aprendendo que percebemos ser possível ensinar, teríamos entendido com facilidade a importância das experiências informais nas ruas, nas praças, no trabalho, nas salas de aula das escolas, nos pátios dos recreios, em que variados gestos de alunos, de pessoal administrativo, de pessoal docente se cruzam cheios de significado” A reflexão de Freire torna-se especialmente significativa diante da experiência vivenciada durante a oficina. Ao longo da atividade, percebemos que a aprendizagem superou os limites da técnica do crochê e constituiu-se como um processo coletivo de troca de experiências, afetos e conhecimentos. Os diferentes gestos, dúvidas, memórias e estratégias compartilhadas entre participantes e ministrantes confirmaram que o ensino acontece nas relações estabelecidas entre os sujeitos. Assim, a oficina reafirmou que os espaços educativos 4 não se restringem à escola formal, mas podem ser construídos em práticas culturais que promovem o diálogo, a colaboração e a valorização dos saberes historicamente produzidos. A questão da ancestralidade trabalhada na oficina rendeu algumas conversas com os participantes. Ao compartilharem lembranças de familiares que faziam crochê ou outras formas de artesanato, tornou-se evidente como essa prática ultrapassa o domínio técnico, estabelecendo-se como um saber transmitido entre gerações, principalmente pela convivência e pela oralidade. Nesse sentido, dialogamos com Antônio Bispo dos Santos (2023), que ressalta a importância da preservação dos saberes tradicionais e da escuta ativa das comunidades, afirmando que, muitas vezes, “[...] quem mais ameaça hoje o sistema são os povos e comunidades tradicionais, pois somos donos de um saber transmitido espontaneamente pela oralidade, sem cobrar nada por isso” (p.46) enquanto a sociedade de forma geral, imprime um valor em todas as práticas, como se todo o saber fosse uma mercadoria.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Diante do exposto, pudemos concluir que a oficina possibilitou a valorização dos conhecimentos tradicionais, reconhecendo o crochê como patrimônio cultural vivo e como prática educativa que fortalece vínculos, memórias e identidades. Podemos afirmar que, mais do que o aprendizado da técnica do crochê, houve um aprendizado de valores. Nas avaliações recebidas dos participantes sobre a oficina de destacamos algumas falas que ressaltam retorno à memória da infância junto a familiares, que citam a sensação agradável de trabalhar com atividades manuais e que destacam a alegria de experimentar algo novo, que pode ser levado para a vida.
REFERÊNCIAS
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 1996.
SANTOS, Antônio Bispo. Somos da terra. PISEAGRAMA, Belo Horizonte, n. 12, p. 44-51, ago. 2018.
SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. 11. ed. rev. Campinas, SP: Autores Associados, 2011.

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