Palestrante
Descrição
Educação em saúde para o uso racional de plantas medicinais: formação de estudantes de Farmácia para atuação junto a agentes comunitários de saúde
Ana Vitória Oliveira Machado
Rodolfo Moreira Baptista
Juliana Aparecida Severi
(Universidade Federal do Espírito Santo, Alegre, Brasil)
Resumo: Este trabalho relata a experiência de formação de uma equipe extensionista de estudantes de Farmácia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), campus de Alegre, no projeto de extensão “Educação em Saúde para o Uso Racional de Plantas Medicinais”, desenvolvido entre agosto de 2025 e julho de 2026. O projeto busca preparar os discentes para conduzir ações educativas sobre o uso seguro e racional de plantas medicinais, valorizando os saberes populares e enfrentando a circulação de informações incorretas sobre o tema. O objetivo do relato é descrever e refletir criticamente sobre as etapas de constituição da equipe, definição participativa do público-alvo e nivelamento teórico-prático, anteriores às intervenções comunitárias. A equipe foi formada por chamada aberta aos estudantes do curso, que reuniu 24 inscritos no primeiro encontro, e consolidou-se com dois coordenadores, um bolsista e estudantes voluntários. Em encontros semanais de duas a três horas, presenciais e virtuais, os estudantes criaram a identidade visual do grupo, utilizaram metodologias ativas (matriz SWOT, matriz GUT, persona e world café), analisaram artigos científicos e dados etnobotânicos de comunidades capixabas e elegeram os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) de Alegre como público-alvo prioritário, pelo papel de mediação e multiplicação de informações junto às famílias. O nivelamento, com 18 temas conduzidos pela coordenação, por uma convidada externa e pelos próprios estudantes, seguiu as diretrizes da Anvisa e das políticas nacionais de plantas medicinais e de práticas integrativas. A experiência fortaleceu o protagonismo discente, a leitura crítica da literatura, a comunicação em saúde e a integração entre ensino, pesquisa e extensão. Entre os desafios, destacaram-se o tempo demandado pela formação, a conciliação de horários e a rotatividade de estudantes. As ações diretas com os ACS constituem a próxima etapa do projeto.
Palavras-chave: Agentes Comunitários de Saúde; Educação em Saúde; Extensão Universitária; Metodologias Ativas; Plantas Medicinais.
INTRODUÇÃO
O uso de plantas medicinais integra as práticas de cuidado de grande parte da população brasileira e se apoia em saberes transmitidos entre gerações. Reconhecendo esse patrimônio, o Brasil instituiu a Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (BRASIL, 2006) e incluiu a fitoterapia entre as práticas da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS (BRASIL, 2015). Contudo, a ideia de que o que é natural está isento de riscos ainda é frequente, e a circulação de informações incorretas em diferentes meios de comunicação pode levar a usos inadequados, a interações medicamentosas e a intoxicações (VEIGA JUNIOR; PINTO; MACIEL, 2005).
Nesse cenário, a extensão universitária, compreendida como processo interdisciplinar, educativo, cultural, científico e político que promove interação transformadora entre a universidade e a sociedade (BRASIL, 2018), oferece ao curso de Farmácia um espaço para aproximar a formação profissional das demandas do território.
Este relato apresenta a experiência do projeto de extensão “Educação em Saúde para o Uso Racional de Plantas Medicinais”, vinculado ao Departamento de Farmácia e Nutrição do Centro de Ciências Exatas, Naturais e da Saúde (CCENS) da Ufes, em Alegre (ES), cujo propósito é promover ações de educação em saúde que fomentem o uso racional de plantas medicinais junto à comunidade, conduzidas por estudantes de Farmácia. O texto concentra-se na etapa de formação da equipe, que antecede as intervenções junto ao público-alvo.
OBJETIVOS
Relatar e refletir criticamente sobre o processo de constituição, planejamento e capacitação de uma equipe extensionista de estudantes de Farmácia para ações de educação em saúde sobre plantas medicinais, destacando as etapas realizadas, os desafios enfrentados e as contribuições para a formação discente.
DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA
A experiência ocorreu entre agosto de 2025 e julho de 2026, no CCENS/Ufes, campus Alegre, tendo como território de referência o município de Alegre (ES). Após a formação da equipe, foram realizados encontros semanais de duas a três horas, em salas de aula e, quando necessário, na plataforma Google Meet. A condução foi feita inicialmente pela coordenação, passando para docentes de Farmácia e, no nivelamento, para os próprios estudantes.
Constituição da equipe e identidade visual. Foi realizada a divulgação de um cartaz digital de chamada para inscrição no projeto, elaborado pela coordenação e compartilhado nas redes sociais ligadas aos estudantes do curso de Farmácia, principalmente, com participação aberta a todos os períodos. O primeiro encontro, presencial, reuniu 24 inscritos (23 de Farmácia e um de Engenharia Química) e teve como objetivos integrar os participantes, apresentar o projeto e discutir o cronograma. Ao longo do desenvolvimento, a equipe se consolidou com dois coordenadores, um bolsista de extensão e nove estudantes voluntários do curso de Farmácia. Na sequência, os próprios estudantes criaram, na plataforma Canva®, a identidade visual do grupo, a logomarca S.E.I.V.A. (Saúde, Educação e Integração entre plantas medicinais, Vida e Ambiente), depois aplicada em camisetas e nos materiais de divulgação, o que fortaleceu o sentimento de pertencimento e o engajamento.
Definição participativa do público-alvo. O primeiro tema dos encontros semanais foi a escolha do público das ações, conduzida de modo participativo para envolver os estudantes desde o planejamento. Foram empregadas metodologias ativas: matriz SWOT, para analisar forças, fraquezas, oportunidades e ameaças; matriz GUT, para priorizar problemas; construção de persona, para caracterizar o perfil do público; e world café, para o planejamento coletivo das ações. Organizados em grupos, os estudantes leram e discutiram artigos sobre o uso de plantas medicinais por diferentes grupos populacionais, a disseminação de informações sobre fitoterapia na internet e o impacto da política nacional da área na formação em saúde. As evidências foram confrontadas com dados etnobotânicos de comunidades capixabas, levantados no PubMed, no SciELO e no Google Scholar, e com aspectos sociodemográficos e indicadores da atenção básica. Nas dinâmicas de levantamento de problemas e soluções, destacaram-se a insuficiência de informações qualificadas, a circulação de notícias falsas e a limitada implementação local de ações públicas voltadas às plantas medicinais. Definiram-se, então, os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) de Alegre como público prioritário, em razão do contato direto e contínuo com as famílias, do vínculo de confiança com a comunidade, da capilaridade no território e do potencial de multiplicação de informações qualificadas.
Nivelamento teórico-prático. Definido o público, a equipe cumpriu um nivelamento de 18 temas, em cerca de 44 horas, em encontros presenciais e virtuais. A coordenação abordou o panorama do uso de plantas medicinais no Brasil, os avanços legais e as políticas públicas, incluindo a PNPIC, os usos populares, os fitoterápicos, os riscos associados, o papel dos ACS na promoção do uso racional e a orientação e prescrição. Uma especialista externa convidada tratou das formas de preparo e uso popular. Os estudantes conduziram temas sobre o uso de plantas medicinais em distúrbios respiratórios, digestivos, hepáticos, cardiovasculares e renais, no diabetes, na gestação e na saúde da pessoa idosa, além de atividades interativas de fixação. Adotaram-se leitura dirigida de artigos, seminários, discussões em grupo, aprendizagem baseada em problemas, elaboração colaborativa de materiais educativos e rodas de conversa. Todo o conteúdo seguiu as diretrizes da Anvisa, da Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos e da PNPIC, o que permitiu padronizar as informações a serem compartilhadas com a comunidade.
RESULTADOS E IMPACTOS
O principal resultado até o momento é a consolidação da estrutura técnico-pedagógica necessária às ações de extensão: equipe constituída, público-alvo definido e nivelamento concluído, com uma base comum de conhecimentos científicos, metodológicos e legais sobre plantas medicinais, fitoterapia, políticas públicas e educação em saúde.
Na formação dos estudantes, o processo mobilizou leitura e análise crítica da literatura, busca de evidências, planejamento de ações educativas, comunicação em saúde e trabalho em equipe. O protagonismo discente esteve presente na criação da identidade visual, na escolha do público-alvo e na condução de temas do nivelamento, em coerência com a compreensão de que ensinar é criar possibilidades para a construção do conhecimento (FREIRE, 1996). As metodologias ativas contribuíram para a autonomia dos estudantes e para a articulação entre evidências científicas, realidade das comunidades e princípios do SUS (BERBEL, 2011).
A atividade teve caráter interdisciplinar ao integrar conhecimentos de Farmácia, Saúde Coletiva, Fitoterapia, Educação em Saúde e Atenção Primária, aproximando a formação das demandas do Sistema Único de Saúde, e fortaleceu a articulação entre ensino, pesquisa e extensão, uma vez que a leitura crítica da literatura fundamentou o planejamento das ações educativas. Embora as ações diretas ainda não tenham sido realizadas, a escolha dos ACS amplia o potencial de impacto social do projeto, pois esses profissionais atuam como multiplicadores de informações em saúde junto às famílias do município. Tal impacto será avaliado por meio de instrumentos aplicados antes e depois das intervenções.
Entre os desafios, destacaram-se o investimento de um período inicial na formação e no nivelamento, que postergou o início das intervenções, embora essencial à qualidade técnico-científica das ações; a conciliação dos horários de estudantes e docentes com as atividades acadêmicas, que exigiu constante reorganização do cronograma; a elevada carga de estudos necessária à preparação; e a rotatividade natural de estudantes ao longo do semestre, que demandou adaptações na composição da equipe e na distribuição das atividades. Além disso, as intervenções com os ACS dependiam da conclusão da capacitação e da compatibilização com a agenda de trabalho desses profissionais, o que impediu sua execução no período. Como aprendizado, ressalta-se a importância de articular, desde o planejamento, o calendário da formação à agenda dos serviços de saúde parceiros.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência mostrou que a preparação criteriosa da equipe, com participação ativa dos estudantes, é ela própria uma etapa formativa e condição para ações de educação em saúde qualificadas e seguras. Como próximas etapas, preveem-se a elaboração de materiais educativos (cartilhas, cartazes e folders), as capacitações com os ACS de Alegre, atividades interativas de fixação, a aplicação de instrumentos de avaliação do conhecimento, da percepção e da satisfação dos participantes, a autoavaliação da equipe e a divulgação dos resultados em eventos científicos e canais institucionais. O projeto contou com o apoio da Pró-Reitoria de Extensão da Ufes, por meio dos Editais Proex 08/2025 (bolsa de extensão) e 09/2025 (material permanente e serviços de terceiros).
REFERÊNCIAS
BERBEL, Neusi Aparecida Navas. As metodologias ativas e a promoção da autonomia de estudantes. Semina: Ciências Sociais e Humanas, Londrina, v. 32, n. 1, p. 25-40, jan./jun. 2011.
BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. Resolução nº 7, de 18 de dezembro de 2018. Estabelece as Diretrizes para a Extensão na Educação Superior Brasileira e regimenta o disposto na Meta 12.7 da Lei nº 13.005/2014, que aprova o Plano Nacional de Educação - PNE 2014-2024 e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 19 dez. 2018. Seção 1, p. 49.
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos. Brasília: Ministério da Saúde, 2006. 60 p. (Série B. Textos Básicos de Saúde).
BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS: atitude de ampliação de acesso. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2015. 96 p.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
VEIGA JUNIOR, Valdir F.; PINTO, Angelo C.; MACIEL, Maria Aparecida M. Plantas medicinais: cura segura? Química Nova, São Paulo, v. 28, n. 3, p. 519-528, 2005.