Palestrante
Descrição
Resumo: A democratização do saber científico é indispensável para promover o pensamento crítico, valorizar a pesquisa e combater a desinformação na área da saúde pública, onde narrativas infundadas podem comprometer a integridade individual e gerar gastos coletivos. Para transpor os muros acadêmicos e superar barreiras linguísticas, as redes sociais surgem como ferramentas dialógicas fundamentais entre pesquisadores e comunidade. Com esse intuito, foi criado em junho de 2023 o perfil de extensão no Instagram @fisiologianodiaadia. Estudantes de graduação regularmente matriculados na disciplina de Fisiologia Humana foram apresentados ao projeto e convidados a colaborar com o referido perfil de maneira voluntária. O projeto contou com a participação de alunos de cursos de Ciências da Saúde como Fisioterapia, Farmácia, Nutrição e Terapia Ocupacional. A iniciativa busca traduzir a disciplina de Fisiologia Humana para o público leigo por meio de carrosséis, infográficos, esquemas visuais e reels focados em situações cotidianas e explicações causais sobre o funcionamento do corpo humano. Contando com 57 publicações e 951 seguidores, o projeto tem como objetivo expandir para público leigo o conhecimento abordado na disciplina de Fisiologia Humana em linguagem não científica e casual, contribuindo para a difusão do saber científico e expansão do conhecimento produzido dentro das Universidades para a sociedade. Do ponto de vista pedagógico, a integração entre ensino e extensão capacita os graduandos para uma comunicação clara, empática e atenta às demandas reais da sociedade. Assim, o projeto consolida a divulgação científica em mídias digitais como um vetor prático de letramento em saúde, reafirmando o compromisso da universidade pública com a transformação social e a universalização do conhecimento científico.
Palavras-chave: Divulgação Científica; Fisiologia Humana; Extensão Universitária; Letramento em Saúde.
INTRODUÇÃO E OBJETIVOS
A democratização do conhecimento científico e a divulgação científica são indispensáveis para fomentar uma sociedade consciente e esclarecida, fortalecer a valorização da ciência e enfrentar o avanço das pseudociências. Ao viabilizar o acesso a evidências e estruturar conteúdos com finalidade formativa, essa prática consolida o letramento científico da população, capacitando-a a realizar escolhas fundamentadas, responsáveis e independentes (CHASSOT, 2003). No âmbito da saúde pública, esse papel se torna ainda mais crítico: o respaldo em desinformações disseminadas no ambiente digital pode retardar intervenções clínicas, comprometer o bem-estar dos indivíduos e gerar expressivos custos aos cofres públicos (WASZAK; KASPRZYCKA-WASZAK; KUBANEK, 2018).
Não obstante, a produção acadêmica nacional ainda enfrenta barreiras para se comunicar com a sociedade de maneira abrangente, compreensível e atrativa (AGUIAR et al., 2024). Para alcançar a sociedade como um todo e o público não académico, faz-se necessário a simplificação dos dados para uma melhor compreensão dos resultados experimentais, o uso de uma linguagem informal e ferramentas de acolhimento social. Nesse cenário, as redes sociais se distinguem dos modelos tradicionais de comunicação científica principalmente pelo caráter participativo. Nelas, os cidadãos deixam a posição de receptores passivos para comentar, questionar e interagir diretamente com quem produz a pesquisa, estabelecendo uma ponte dialógica contínua entre a comunidade acadêmica e a sociedade (ALMEIDA; MORENO-RODRÍGUEZ, 2024).
Considerando o potencial da comunicação entre o conhecimento produzido na Universidade e a sociedade através de redes sociais, bem como a possibilidade do uso dessa mídia como ação educacional e popularização da Ciência, criamos no Instagram o perfil @fisiologianodiaadia. Ao conectar mecanismos biológicos com situações cotidianas, como “Por que sentimos sede?” ou “Por que não sentimos o sabor da comida quando estamos gripados?”, nosso objetivo é expandir para público leigo o conhecimento abordado na disciplina de Fisiologia Humana em linguagem não científica e casual, contribuindo para a difusão do saber científico e expansão do conhecimento produzido dentro das Universidades para a sociedade.
DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA
Em junho de 2023, a coordenadora do presente projeto criou o perfil no Instagram @fisiologianodiaadia. Estudantes de graduação regularmente matriculados na disciplina de Fisiologia Humana sob a sua coordenação/colaboração foram apresentados ao projeto e convidados a colaborar com o referido perfil de maneira voluntária. Foram realizadas reuniões no formato online para orientação dos alunos a respeito de temas a serem abordados, layout do material a ser produzido e linguagem a ser utilizada, bem como eventuais correções dos trabalhos desenvolvidos. O projeto contou com a participação de alunos de cursos de Ciências da Saúde como Fisioterapia, Farmácia, Nutrição e Terapia Ocupacional.
RESULTADOS E IMPACTOS
O perfil @fisiologianodiaadia se propõe a atuar na divulgação científica da fisiologia humana e áreas correlatas, traduzindo conceitos biológicos complexos para um formato acessível em redes sociais. Atualmente possuímos 57 publicações no feed principal, incluindo carrosséis e reels e 951 seguidores. O ponto forte do perfil é a capacidade de decompor vias metabólicas e processos fisiológicos densos em esquemas visuais, infográficos e carrosséis fáceis de assimilar, aproximando a ciência básica do público leigo. Ao conectar eventos biológicos com situações do dia a dia o perfil demonstra como o corpo funciona e a relevância da Fisiologia fora do ambiente acadêmico e de áreas da saúde. Em vez de focar apenas em regras prontas, a nossa abordagem costuma privilegiar o "porquê" por trás dos fenômenos, estimulando o raciocínio científico mecanicista.
A literatura biomédica costuma ser restrita por barreiras linguísticas (inglês técnico). Perfis como o @fisiologianodiaadia traduzem a terminologia especializada em analogias e diagramas compreensíveis, permitindo que indivíduos sem formação técnica compreendam o funcionamento básico do próprio organismo. Ao explicar como o corpo reage a estímulos (ex.: sinalização de insulina, osmorregulação, fadiga neuromuscular), o leitor desenvolve uma mentalidade voltada para a causalidade biológica. Isso reduz a dependência de "regras mágicas" ou consensos de senso comum. Um público com este tipo de compreensão torna-se menos suscetível a narrativas pseudocientíficas, como produtos "desintoxicantes" ou dietas milagrosas. Pacientes mais letrados cientificamente dialogam de forma mais produtiva com profissionais de saúde, compreendem a lógica de diagnósticos ou intervenções e aderem com mais consistência a tratamentos baseados em evidências.
Assim, perfis de divulgação científica como o @fisiologianodiaadia desempenham um papel estrutural no letramento científico da população, situando-se na fronteira entre a literatura acadêmica e o público geral. O letramento científico vai além de memorizar termos; trata-se de compreender a natureza do método científico, interpretar evidências e aplicar esse discernimento nas escolhas cotidianas. Adicionalmente, a articulação entre ensino, pesquisa e extensão fomenta a formação de profissionais socialmente conscientes, dotados de comunicação clara e comprometidos com a democratização do saber. Integrando docentes e graduandos da área da saúde, este projeto de extensão reafirma a universidade pública como vetor de transformação social e alinha a prática acadêmica às demandas concretas da sociedade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A divulgação científica é uma ponte indispensável entre os laboratórios e a vida cotidiana. Sem ela, o conhecimento gerado nas universidades e centros de pesquisa corre o risco de permanecer confinado a periódicos especializados e congressos, restrito a uma minoria técnica. Traduzir dados complexos e metodologias rigorosas em linguagem acessível e compreensível não significa simplificar excessivamente a ciência, mas torná-la um bem público e compartilhado.
Quando a sociedade compreende o método científico e os resultados da pesquisa, ganha autonomia. Em um cenário saturado de desinformação, teorias infundadas e promessas milagrosas — sobretudo em áreas sensíveis como a saúde — o acesso à evidência sólida atua como uma barreira crítica. Uma população informada toma decisões cotidianas melhores: vacina suas famílias com segurança, compreende medidas de prevenção sanitária, valoriza o uso sustentável dos recursos naturais e avalia riscos com base em fatos, não em boatos.
Ao aproximar a pesquisa acadêmica da realidade social, a divulgação científica não apenas educa e protege, mas também democratiza o pensamento crítico e inspira novas gerações de pesquisadores. Fazer a ciência circular fora dos muros institucionais é, em última análise, reconhecer que o progresso científico só cumpre seu propósito fundamental quando melhora, de forma concreta e perceptível, a vida das pessoas.
REFERÊNCIAS
AGUIAR, Cibele Maria Garcia de et al. Are we on the right path? Insights from Brazilian universities on monitoring and evaluation of Public Communication of Science and Technology in the digital environment. Journal of Science Communication, v. 23, n. 06, 2 set. 2024.
ALMEIDA, João Vitor Venceslau de; MORENO-RODRÍGUEZ, Andrei Steveen. Divulgação científica nas redes sociais digitais: experiências e implicações para a formação de licenciandos em biologia. Investigações em Ensino de Ciências, v. 29, n. 2, p. 460–478, 10 set. 2024.
CHASSOT, Attico. Alfabetização científica: uma possibilidade para a inclusão social. Revista Brasileira de Educação, n. 22, p. 89–100, abr. 2003.
WASZAK, Przemyslaw M.; KASPRZYCKA-WASZAK, Wioleta; KUBANEK, Alicja. The spread of medical fake news in social media – The pilot quantitative study. Health Policy and Technology, v. 7, n. 2, p. 115–118, 1 jun. 2018.