Palestrantes
Descrição
Cuidoteca: Estratégia de Permanência no Programa Mulheres Mil
Resumo: Este relato apresenta a experiência inicial da Cuidoteca como estratégia de apoio à permanência das participantes do Programa Mulheres Mil, considerando a necessidade de conciliar a participação nas atividades formativas com as responsabilidades de cuidado. O objetivo é relatar a organização e o funcionamento desse espaço, destacando as práticas desenvolvidas, os desafios identificados e os principais aprendizados construídos ao longo dos encontros. A Cuidoteca atende crianças de 3 a 12 anos durante o período das atividades do Programa, proporcionando um ambiente gratuito, protegido e acolhedor enquanto suas responsáveis participam da formação. A experiência é organizada a partir do planejamento prévio das atividades, considerando as diferentes faixas etárias, uma vez que crianças com idades distintas compartilham o mesmo espaço e apresentam diferentes interesses, níveis de autonomia e necessidades. Os encontros seguem uma rotina de acolhimento, desenvolvimento de atividades recreativas e educativas, momento destinado ao lanche e organização para o encerramento. A partir da experiência, percebeu-se a importância de um planejamento flexível, capaz de ser adaptado às características das crianças presentes em cada encontro, bem como a necessidade de atenção às especificidades de crianças atípicas. Entre os principais aprendizados, destaca-se a compreensão de que o cuidado oferecido às crianças está diretamente relacionado à criação de condições para que as participantes possam frequentar as atividades com maior tranquilidade. Embora a experiência ainda esteja em fase inicial, os registros realizados e as situações vivenciadas apontam a Cuidoteca como uma iniciativa relevante para reduzir barreiras relacionadas às responsabilidades de cuidado e fortalecer as condições de acesso, participação e permanência das mulheres no Programa Mulheres Mil.
Palavras-chave: Cuidoteca; Acolhimento; Infância; Cuidado; Mulheres Mil.
INTRODUÇÃO
Embora a experiência da Cuidoteca ainda esteja em sua fase inicial, o período vivenciado até o momento possibilita identificar aspectos importantes da relação construída com as crianças e da organização desse espaço. Desde os primeiros encontros, buscou-se compreender a esta proposta não apenas como um local de permanência para as crianças, mas como um ambiente de acolhimento, convivência, cuidado e desenvolvimento.
A Cuidoteca integra o Curso Cuidador de Idoso + Cuidados, ofertado pelo Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), Campus Nova Venécia, por meio do Programa Mulheres Mil. O curso teve início em setembro de 2026 com duração prevista de três meses para 25 alunas. Esta ação funciona de forma simultânea às aulas, acolhendo 10 crianças das participantes durante o período em que suas mães ou responsáveis estão em formação.
A Cuidoteca é parte de uma política pública dentro do Programa Mulheres Mil + Cuidados que busca colaborar para ampliar o acesso das mulheres à formação profissional no setor de cuidados e apoiar sua permanência nos cursos, (BRASIL, [s.d.]) e integra as ações do Plano Nacional de Cuidados (BRASIL, 2025). Na ação mencionada atende-se crianças de 3 a 12 anos de idade, às terças e quintas-feiras, das 18h às 21h, cujo objetivo é oferecer acolhimento seguro e gratuito a crianças de 3 a 12 anos, permitindo que mães, pais e outros responsáveis possam participar de atividades de ensino, qualificação profissional e trabalho nos horários em que não dispõem de atendimento escolar para seus filhos.
METODOLOGIA
Para proporcionar este atendimento foi elaborado um planejamento dinâmico, considerando principalmente as diferentes faixas etárias das crianças atendidas. As atividades foram pensadas de maneira a respeitar as características, necessidades e possibilidades de participação de cada idade, permitindo que as crianças vivenciem momentos de brincadeira, interação, criatividade e aprendizagem durante o período em que permanecem no espaço. Essa organização também possibilita adaptar as propostas de acordo com o perfil do grupo presente em cada encontro.
Foi estabelecida uma rotina para proporcionar maior organização e favorecer a adaptação das crianças ao ambiente contemplando momentos de acolhida, desenvolvimento das atividades planejadas, brincadeiras e interação entre as crianças, além do momento destinado ao lanche, que também integra a dinâmica de cuidado desenvolvida no espaço. A repetição de alguns desses momentos ao longo dos encontros contribui para que as crianças gradativamente reconheçam o ambiente e compreendam a dinâmica estabelecida.
O acompanhamento das ações é realizado de forma sistemática. Em cada encontro, é feito o registro de presença das crianças, permitindo acompanhar a frequência e a participação no projeto. Também são realizados registros fotográficos das atividades, respeitando as autorizações pertinentes, além do planejamento prévio das propostas desenvolvidas e da elaboração de relatórios referentes a cada encontro. Tais instrumentos de registro possibilitam documentar as experiências vivenciadas, identificar dificuldades e necessidades de adaptação e acompanhar o desenvolvimento das atividades ao longo do projeto. Os registros também servem como subsídio para avaliar as práticas realizadas e aprimorar o planejamento dos encontros seguintes, considerando as particularidades das crianças atendidas.
DISCUSSÕES
As diferenças de faixa etária, comportamento, interesses e formas de interação exigem que o planejamento seja flexível e que as atividades sejam constantemente adaptadas. Dessa maneira, a prática cotidiana na Cuidoteca também se constitui como um processo de aprendizagem para a equipe envolvida, que observa as respostas das crianças e, a partir delas, reorganiza estratégias para os encontros seguintes.
As primeiras experiências da Cuidoteca demonstram que as crianças também são consideradas sujeitos da experiência. Tal fato se confirma no próprio curso, quando na disciplina inicial intitulada “Mapa da Vida”, as alunas relataram justamente desafios com os filhos: algumas precisam levar os filhos para as aulas, outras precisam deixá-los para participar, e há as que chegam direto do trabalho, exaustas, para garantir a presença. A Cuidoteca busca mitigar parte desses desafios. Essa leitura dialoga com Ferreira (2014), que, ao estudar as salas de acolhimento do ProJovem Urbano, criadas para estudantes que não tinham com quem deixar os filhos durante as aulas, concluiu que elas são um apoio eficiente para a permanência, mas não a única solução para a evasão.
Outro desafio identificado refere-se ao acolhimento de crianças com necessidades específicas, incluindo crianças autistas e com TDAH. A experiência demonstrou que algumas situações demandam atenção individualizada, estratégias pedagógicas específicas e uma organização do ambiente que considere diferentes formas de interação, comunicação e participação. Nesse sentido, identificou-se como necessidade um profissional que permita o desenvolvimento de uma Cuidoteca inclusiva.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Muito embora a Cuidoteca esteja em sua primeira edição, mostra-se como parte essencial da proposta de cuidado do curso: enquanto as mulheres se formam para cuidar de idosos, seus próprios contextos de cuidado são reconhecidos, o que ajuda a garantir sua permanência na formação e oferece às crianças uma experiência planejada de acolhimento e convivência. Por estar em fase inicial, a iniciativa ainda precisa de mais tempo de acompanhamento para uma avaliação consistente de seus resultados, mas as vivências já têm ajudado a identificar necessidades que orientarão seu aprimoramento .
Entre os próximos passos, destaca-se a organização do atendimento por faixa etária, para contemplar as diferentes necessidades de crianças de 3 a 12 anos em um mesmo espaço, e o fortalecimento do atendimento inclusivo a crianças autistas e com TDAH — sendo desejável o apoio de um profissional de Educação Especial para qualificar o acolhimento e apoiar a equipe na construção de estratégias adequadas a cada criança
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Mulheres Mil + Cuidados. Brasília, DF: MDS, [s.d.]. Disponível em: https://www.gov.br/mds/pt-br/orgaos/SNCF/homologacao-mulheres-mil-cuidados. Acesso em: 21 set. 2026.
BRASIL. Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome; Ministério das Mulheres; Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. Portaria Conjunta MDS/MMulheres/MDHC nº 35, de 11 de dezembro de 2025. Estabelece as ações do Plano Nacional de Cuidados. Brasília, DF, 2025. Disponível em: https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/portaria-conjunta-mds/mmulheres/mdhc-n-35-de-11-de-dezembro-de-2025-675175343. Acesso em: 21 set. 2026.
FERREIRA, Rosilaine Gonçalves da Fonseca. “Como estudar, se não tenho com quem deixar meus filhos?”: um estudo sobre as salas de acolhimento do ProJovem Urbano. 2014. Dissertação (Mestrado em Educação) – Centro de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.