26 – 27 de nov. de 2026
Vitória
Fuso horário America/Sao_Paulo

Do Território ao Laboratório e de Volta Ao Território: Uma Experiência Extensionista do Microex em Caramuru/ES

Não agendado
20m
Espírito Santo (Vitória)

Espírito Santo

Vitória

Av. Fernando Ferrari, 514 - Goiabeiras, Vitória - ES.
Relato de Experiência Saúde, Promoção da Qualidade de Vida e Desenvolvimento Comunitário

Palestrante

Camila Dias Canal (Universidade Federal do Espírito Santo)

Descrição

Do Território ao Laboratório e de Volta Ao Território: Uma Experiência Extensionista do Microex em Caramuru/ES  

Camila Dias Canal

Davi Abreu Carvalho Mothé

Carla Ferreira Miguel

Glauciomar Buss

(docente do EEEFM Frederico Boldt, Santa Maria de Jetibá, Brasil)

Kênia Valéria dos Santos

(Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, Brasil)

Resumo: O MicroEx – Microbiologia em Extensão é um projeto da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) voltado à divulgação da microbiologia e da Saúde Única. Este trabalho relata uma experiência de divulgação científica e devolutiva de resultados de pesquisa realizada em Caramuru, Santa Maria de Jetibá/ES. A ação envolveu 40 estudantes do 9º ano da EEEFM Frederico Boldt e produtores rurais participantes da pesquisa. Na escola, resultados de análises microbiológicas realizadas no próprio território foram apresentados em linguagem acessível aos alunos. A atividade iniciou-se pelo reconhecimento da comunidade em imagem aérea e identificação dos locais de coleta, depois foram apresentadas as análises dos resultados, abordando conceitos como a resistência e seleção dos microorganismos por meio de antibióticos. Posteriormente, a fim de reforçar o conteúdo abordado, uma gincana concebida e conduzida por graduandas utilizou uma adaptação do pique-pega para representar bactérias sensíveis e resistentes, antibiótico e sistema imunológico. Os produtores receberam devolutivas individualizadas durante visitas às propriedades em que foram coletadas amostras. A inserção da equipe no território foi favorecida por vínculo estabelecido em projeto de extensão anterior e pela participação de um professor residente na comunidade, que acompanhou as atividades e mediou o contato com os produtores locais. A experiência evidenciou a importância dos vínculos locais, da adequação da comunicação aos diferentes públicos e da devolutiva como espaço de diálogo. Para os universitários, possibilitou exercitar comunicação científica e planejamento de atividades educativas. A experiência reforçou o potencial da integração entre pesquisa e extensão para promover educação científica, formação acadêmica e troca de saberes.

Palavras-chave: Divulgação científica; Extensão universitária; Microbiologia; Resistência aos antimicrobianos; Saúde Única.

INTRODUÇÃO

A extensão universitária favorece a aproximação entre universidade e sociedade e possibilita que conhecimentos acadêmicos sejam compartilhados e ressignificados no diálogo com diferentes públicos. Na microbiologia, essa interação pode contribuir para aproximar da população temas como diversidade microbiana, Saúde Única e resistência aos antimicrobianos. A alfabetização microbiológica é particularmente relevante diante da presença dos microrganismos em diferentes dimensões da vida humana, ambiental e social e da necessidade de ampliar a compreensão da sociedade sobre o mundo microbiano (TIMMIS et al., 2019).

No contexto da Educação Básica, estratégias educativas que aproximem os estudantes do mundo microbiano podem contribuir para a alfabetização científica, especialmente quando associam experimentação, recursos visuais e atividades que tornem fenômenos microscópicos mais compreensíveis (MCGENITY et al., 2020; FILOMENO et al., 2022).

O MicroEx – Microbiologia em Extensão (SIGEX nº 5546), da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), desenvolve ações educativas e de divulgação científica em microbiologia e Saúde Única. A aproximação da equipe com Caramuru, distrito de Santa Maria de Jetibá/ES, teve origem em um projeto de extensão anterior que possibilitou a parceria com um professor residente na comunidade. A partir dessa aproximação foi desenvolvido um projeto de pesquisa contemplado no Edital FAPES nº 21/2023 – Mulheres na Ciência (Processo nº 2024-1HCSH; T.O. nº 751/2024; recursos FUNCITEC). A pesquisa investigou a diversidade bacteriana e a resistência aos antimicrobianos em amostras ambientais e humanas de Caramuru. Seus resultados forneceram a base científica para as ações de divulgação e devolutiva desenvolvidas pelo MicroEx. Assim, nosso objetivo é relatar a experiência de divulgação científica e devolutiva de resultados de pesquisa em Caramuru, destacando as estratégias utilizadas pelo MicroEx no diálogo com estudantes, professores e produtores rurais e os aprendizados decorrentes da experiência.

DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA 

A experiência foi desenvolvida em duas frentes: uma atividade educativa na EEEFM Frederico Boldt e a devolutiva individual aos produtores rurais participantes da pesquisa. Na escola, participaram 40 estudantes das duas turmas do 9º ano, em uma atividade de aproximadamente três horas dividida em dois momentos. Inicialmente, o doutorando Davi Abreu Carvalho Mothé apresentou os resultados da pesquisa em linguagem acessível. Como estratégia de contextualização, os estudantes foram desafiados a localizar a própria escola em uma imagem aérea de Caramuru. A partir desse reconhecimento, foram indicados os locais onde ocorreram as coletas, aproximando a pesquisa do território vivenciado pelos estudantes. Foram apresentados resultados de amostras de água, solo, cama de aviário e swabs de mãos e cavidade nasal de estudantes voluntários da escola.

No segundo momento, foi realizada, na quadra, uma gincana inspirada no pique-pega, planejada e conduzida pelas graduandas do MicroEx para retomar ludicamente os conceitos discutidos. Três estudantes representaram o sistema imunológico, o antibiótico e uma bactéria resistente, enquanto os demais representaram bactérias sensíveis.

Em rodadas de dois minutos, as “bactérias sensíveis” se deslocavam pela quadra enquanto “antibiótico” e “sistema imunológico” tentavam inativá-las por meio do toque, deixando nas camisetas marcas de tinta guache azul e branca, respectivamente. A “bactéria resistente”, identificada pela cor vermelha, buscava tocar as sensíveis, que passavam a representar bactérias resistentes. Ao final, as marcas permitiam visualizar as interações ocorridas durante o jogo. A dinâmica constituiu uma representação didática simplificada, sem pretensão de reproduzir os mecanismos biológicos de aquisição ou transferência da resistência.

A segunda frente consistiu no retorno às propriedades rurais para apresentação individual dos resultados. Os dados referentes às amostras de cada propriedade foram explicados oralmente, em linguagem acessível e com apoio de planilhas digitais, permitindo contextualizar os achados e esclarecer dúvidas. O professor residente na comunidade apresentou o território à equipe, acompanhou as visitas e mediou o contato com os produtores. Essa atuação foi especialmente relevante diante das particularidades culturais da comunidade pomerana e da utilização do idioma pomerano por parte de seus integrantes.

RESULTADOS E IMPACTOS 

A experiência demonstrou a importância de partir de elementos reconhecíveis pelo público na comunicação científica. A localização da escola e dos pontos de coleta na imagem aérea permitiu iniciar a atividade pelo território dos próprios estudantes, antes da apresentação dos resultados microbiológicos. A gincana, por sua vez, possibilitou retomar os conceitos por meio de uma atividade participativa e corporal. A utilização de estratégias que aproximam conteúdos microbiológicos da realidade do público tem sido apontada como uma possibilidade de ampliar o alcance educativo das ações extensionistas em microbiologia (TEODORO et al., 2025).

A ação também teve caráter formativo para os universitários. O doutorando precisou traduzir resultados científicos para estudantes da educação básica, enquanto as graduandas planejaram e conduziram a estratégia lúdica, exercitando comunicação científica e elaboração de recursos educativos.

Durante a atividade, poucos estudantes manifestaram inicialmente interesse em ingressar na UFES. Ao final, em conversas informais, alguns demonstraram interesse em conhecer a Universidade e seus laboratórios e mencionaram a possibilidade de ingresso futuro. Como não houve avaliação estruturada, essas manifestações são apresentadas como observações da equipe, sem pretensão de mensurar o impacto da ação.

A interação com os produtores evidenciou a importância da continuidade dos vínculos extensionistas. A parceria construída anteriormente e a mediação permanente do professor local favoreceram o acesso ao território e o diálogo com os participantes. Nas devolutivas, além de apresentar os resultados, a equipe conheceu aspectos do trabalho agrícola e ouviu dúvidas e percepções dos produtores, reforçando o caráter de troca de saberes. Essa perspectiva aproxima a divulgação dos resultados de uma prática extensionista baseada não apenas na transmissão de informações, mas também na interação e na troca de conhecimentos entre universidade e comunidade (TEODORO et al., 2025).

Declaração de uso de inteligência artificial: Ferramentas de inteligência artificial generativa foram utilizadas como apoio à revisão linguística, organização e aprimoramento da redação do texto. A concepção do trabalho, as informações apresentadas, a análise e a revisão final são de responsabilidade dos autores.

Figura 1 – Recursos visuais utilizados na ação de divulgação científica do MicroEx em Caramuru, Santa Maria de Jetibá/ES. (A) contextualização do território; (B) representação das etapas de coleta e cultivo bacteriano; (C) recurso didático utilizado para abordar antibióticos e resistência bacteriana; (D) apresentação dos resultados de resistência aos antimicrobianos obtidos na pesquisa realizada na comunidade. Fonte: Elaborada pelos autores (2026).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do relato apresentado, é indispensável no que se diz respeito às atividades extensionistas a capacidade de aprender e se adequar ao meio em que opera, compreender a realidade de seu público alvo através do diálogo direcionam para o sucesso no vínculo acadêmico comunitário, que é essencial para um impacto positivo na sociedade e êxito nos trabalhos realizados e transmissão de conhecimentos científicos.

REFERÊNCIAS

FILOMENO, Carlos Eduardo da Silva et al. A Microbiologia experimental na Educação Básica: caminhos possíveis para a alfabetização científica. Revista Educação Pública, Rio de Janeiro, v. 22, n. 4, 1 fev. 2022.

MCGENITY, Terry J. et al. Visualizing the invisible: class excursions to ignite children's enthusiasm for microbes. Microbial Biotechnology, v. 13, n. 4, p. 844–887, 2020. DOI: 10.1111/1751-7915.13576. 

TEODORO, Vanessa Aglaê Martins et al. A Microbiologia como ferramenta de extensão para a educação em saúde. Revista Brasileira de Extensão Universitária, v. 16, n. 2, p. 175–188, 2025. DOI: 10.29327/2303474.16.2-6. 

TIMMIS, Kenneth et al. The urgent need for microbiology literacy in society. Environmental Microbiology, v. 21, n. 5, p. 1513–1528, 2019. DOI: 10.1111/1462-2920.14611.

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Autores

Camila Dias Canal (Universidade Federal do Espírito Santo) Kênia Valéria dos Santos (UFES) Glauciomar Buss (Universidade Federal do Espírito Santo) Carla Ferreira Miguel (Universidade Federal do Espírito Santo) Davi Abreu Carvalho Mothé (Universidade Federal do Espírito Santo)

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