Palestrante
Descrição
Serviço de Anatomia Patológica Bucal da UFES: Experiência extensionista na formação acadêmica e no apoio ao diagnóstico de lesões bucais¹
Beatriz Ribeiro de Souza²
Sandra Ventorin von Zeidler3
Danielle Resende Camisasca Barroso3
(Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória, Brasil)
Resumo: A extensão universitária constitui importante espaço de integração entre universidade e sociedade, favorecendo a articulação entre conhecimento acadêmico, formação profissional e demandas de saúde da população. Na Odontologia, experiências extensionistas possibilitam ampliar os cenários de aprendizagem e aproximar os estudantes da realidade dos serviços de saúde. Nesse contexto, o Serviço de Anatomia Patológica Bucal (SAP Bucal) da Universidade Federal do Espírito Santo atua no recebimento e processamento de espécimes provenientes de biópsias de lesões orais, contribuindo para a definição diagnóstica e para o direcionamento da assistência aos pacientes. O presente relato tem como objetivo descrever a experiência de participação no SAP Bucal, destacando as atividades desenvolvidas, os desafios encontrados, o aprendizado proporcionado pela prática e suas contribuições para a formação acadêmica e para a saúde bucal. Trata-se de um relato de experiência construído a partir da vivência no SAP Bucal do curso de odontologia da UFES. As atividades envolvem o acompanhamento do fluxo de processamento dos espécimes teciduais, desde o recebimento e a avaliação macroscópica realizados pelos docentes, passando pelo registro e identificação das amostras, processamento histotécnico e confecção das lâminas, até a avaliação histopatológica e a inserção dos laudos no sistema Entre os principais desafios, destaca-se a insuficiência de informações nos formulários de solicitação, que pode dificultar a correlação clínico-patológica e a definição diagnóstica. Quanto ao impacto social, o serviço contribiu para o diagnóstico de lesões bucais, incluindo desordens potencialmente malignas e câncer oral, favorecendo o encaminhamento adequado dos pacientes para tratamento e acompanhamento. Nesse contexto, a experiência no SAP Bucal evidenciou a relevância da extensão universitária tanto para a formação acadêmica quanto para a qualificação do cuidado em saúde bucal oferecido à população.
Palavras-chave: Diagnóstico Clínico; Patologia Bucal; Doenças da Boca; Extensão Comunitária.
INTRODUÇÃO
As ações de extensão universitária constituem importantes espaços de integração entre a universidade e a sociedade, possibilitando a articulação entre o conhecimento acadêmico e as demandas da sociedade. Na área da saúde, essas experiências ampliam os cenários de aprendizagem e favorecem o desenvolvimento de competências profissionais, humanas e sociais, contribuindo para uma formação mais próxima da realidade vivenciada pela população (Fadel et al., 2013).
No âmbito da saúde bucal, o acesso a serviços especializados de diagnóstico constitui componente fundamental para a identificação e o manejo das diferentes alterações que acometem a cavidade oral, especialmente aquelas que demandam avaliação histopatológica. Essa necessidade assume particular relevância no contexto do SUS, no qual a articulação entre a atenção odontológica e os serviços especializados é essencial para garantir diagnóstico oportuno e continuidade do cuidado. Entre essas condições, destacam-se as desordens orais potencialmente malignas (DOPMs), que apresentam risco aumentado de transformação para carcinoma de células escamosas e requerem diagnóstico e acompanhamento oportunos. Estudos epidemiológicos demonstram que essas condições representam um importante problema de saúde pública, com prevalência global estimada em aproximadamente 5%, embora com variações relacionadas às populações e aos tipos de lesão avaliados (Mello et al., 2018; Lonni et al., 2026).
A qualidade das informações clínicas que acompanham o espécime é essencial para a correlação clínico-patológica e pode contribuir para maior precisão diagnóstica (Mendez et al., 2016). Nesse sentido, serviços de Patologia Bucal vinculados às universidades podem contribuir para ampliar o acesso ao diagnóstico especializado e apoiar a rede de atenção à saúde bucal, ao mesmo tempo em que constituem espaços relevantes para a formação acadêmica.
Nessa perspectiva, o Serviço de Anatomia Patológica Bucal (SAP Bucal) a Universidade Federal do Espírito Santo atua no processamento e diagnóstico anatomopatológico de espécimes provenientes de biópsias realizadas nas clínicas odontológicas da própria universidade e em instituições e serviços externos, contribuindo para a emissão de laudos e o direcionamento da conduta clínica. Paralelamente, proporciona aos estudantes a vivência da rotina da patologia e o contato com diferentes lesões e seus aspectos clínicos e histopatológicos, favorecendo a integração entre teoria e prática e a compreensão da importância da qualidade das informações clínicas para o processo diagnóstico.
Dessa forma, o presente relato tem como objetivo descrever a experiência no SAP, destacando o percurso das atividades extensionistas desenvolvidas.
OBJETIVOS
Relatar a experiência no SAP Bucal da UFES, destacando suas contribuições para a formação acadêmica e profissional, bem como sua importância como ação extensionista de apoio ao diagnóstico de lesões bucais e de aproximação entre universidade e comunidade.
DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA
O fluxo de trabalho inicia-se com o recebimento de espécimes clínicos provenientes de biópsias realizadas nas diferentes clínicas odontológicas da UFES ou encaminhados por outras instituições e profissionais. Após o recebimento, as professoras responsáveis realizam a macroscopia do material e, em seguida, a solicitação é cadastrada no sistema utilizado pelo serviço, recebendo uma numeração específica para controle e rastreabilidade do material do paciente.
Posteriormente, os espécimes são encaminhados ao laboratório para processamento histotécnico e confecção das lâminas. Após essa etapa, as docentes realizam a avaliação histopatológica do material, considerando os achados microscópicos para estabelecer o diagnóstico. Com o diagnóstico concluído, o laudo é inserido no sistema, finalizando o fluxo do serviço e permitindo o encaminhamento das informações ao profissional responsável pelo paciente.
Além do fluxo diagnóstico, o serviço também atua no suporte aos profissionais que utilizam o serviço, oferecendo orientações relacionadas à realização das biópsias, ao armazenamento e ao encaminhamento adequado dos materiais, bem como esclarecimentos após a emissão dos laudos.
Durante a participação no projeto, o contato frequente com diferentes lesões bucais possibilitou observar características clínicas, sintomas e condições que acometem a cavidade bucal. Essa vivência contribuiu para o aprofundamento dos conhecimentos em Patologia Bucal e para a compreensão da relação entre as informações clínicas fornecidas e a análise histopatológica.
RESULTADOS E IMPACTOS
O acervo do projeto já gerou iniciações científicas, trabalhos de conclusão de curso e dissertações de mestrado. A experiência proporcionou importante contribuição para a formação acadêmica, especialmente pela possibilidade de contato contínuo com diferentes lesões bucais. A vivência permitiu ampliar conhecimentos relacionados aos aspectos clínicos e histopatológicos das alterações observadas, favorecendo uma formação mais integrada e contribuindo para o desenvolvimento de uma postura profissional mais cuidadosa diante do paciente.
Um dos principais aprendizados foi compreender a importância do registro adequado das informações clínicas que acompanham o material encaminhado para análise. Durante a experiência, observou-se que fichas com informações insuficientes podem dificultar a interpretação do espécime e, consequentemente, o processo diagnóstico. Essa percepção contribuiu para uma maior atenção, durante a formação clínica, à necessidade de registrar de maneira completa e objetiva as informações relevantes sobre o paciente e a lesão.
No âmbito da comunidade, a atuação do serviço apresenta impacto significativo por possibilitar o diagnóstico de diferentes condições que acometem a cavidade bucal. A identificação de desordens com potencial de malignização e de neoplasias malignas evidencia a relevância social do serviço, uma vez que o diagnóstico pode contribuir para o direcionamento da conduta terapêutica e para a adoção de medidas de acompanhamento adequadas (Ribeiro et al., 2026). O próprio serviço destaca que a detecção dessas alterações é fundamental para um prognóstico favorável, possibilitando intervenção precoce e, em determinadas situações, evitando a progressão para neoplasias malignas.
Outro impacto observado está relacionado à abrangência da ação extensionista. Ao atender demandas provenientes tanto da UFES quanto de instituições externas, consultórios, hospitais e profissionais particulares, o serviço amplia o alcance da universidade e disponibiliza conhecimento especializado para diferentes segmentos da comunidade. Foram emitidos 229 laudos de julho de 2025 a maio de 2026, sendo 88 laudos oriundos de espécimes cirúrgicos provenientes da UFES, e 141 laudos provenientes de serviços externos como outras faculdades de odontologia da Grande Vitória, cursos de especialização e consultórios particulares.
A experiência mostrou a integração entre extensão, ensino e pesquisa, além de destacar a contribuição do serviço para o crescimento acadêmico de discentes de graduação e pós-graduação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O SAP Bucal da UFES apresenta relevante impacto social ao contribuir para a identificação de diferentes doenças bucais, favorecendo o encaminhamento adequado dos pacientes e a possibilidade de intervenção em tempo oportuno. Assim, a experiência evidencia a extensão universitária como instrumento de transformação social e de formação de profissionais mais preparados, atentos e comprometidos com a saúde da comunidade.
REFERÊNCIAS
FADEL, C. B. et al. O impacto da extensão universitária sobre a formação acadêmica em Odontologia. Interface - Comunicação, Saúde, Educação, v. 17, n. 47, p. 937–946, out. 2013.
FORMAN, M. S.; CHUANG, S.-K.; AUGUST, M. The accuracy of clinical diagnosis of oral lesions and patient-specific risk factors that affect diagnosis. Journal of Oral and Maxillofacial Surgery, v. 73, n. 10, 2015.
LONNI, N. et al. Global prevalence of oral potentially malignant disorders: an updated systematic review and meta-analysis. Journal of Oral Pathology & Medicine, v. 55, n. 7, p. 747–754, 2026.
MELLO, F. W. et al. Prevalence of oral potentially malignant disorders: a systematic review and meta-analysis. Journal of Oral Pathology & Medicine, v. 47, n. 7, p. 633–640, 2018.
MENDEZ, M.; HAAS, A. N.; RADOS, P. V.; SANT'ANA FILHO, M.; CARRARD, V. C. Agreement between clinical and histopathologic diagnoses and completeness of oral biopsy forms. Brazilian Oral Research, v. 30, n. 1, e94, 2016.
RIBEIRO, B. et al. Malignant-transformation-free survival in oral potentially malignant disorders in the State of Espírito Santo, Brazil. Journal of Stomatology, Oral and Maxillofacial Surgery, v. 127, n. 6, p. 102960, 2026.