Palestrantes
Descrição
Maria Luiza Falsoni Giori (Universidade federal do Espírito Santo, Vitória, Brasil), Larissa Campos Vieira Pereira (Universidade federal do Espírito Santo, Vitória, Brasil), Danilo Caliari (Universidade federal do Espírito Santo, Vitória, Brasil), Gabriel Campos Pereira (Universidade federal do Espírito Santo, Vitória, Brasil), Maria Alice Roseira Bessa Ferraz (Universidade federal do Espírito Santo, Vitória, Brasil), Maria Eduarda Silva Stein (Universidade federal do Espírito Santo, Vitória, Brasil), Kátia Cristine Carvalho Pereira (Universidade federal do Espírito Santo, Vitória, Brasil), Adriely Curcio Capelini (Universidade Federal do Espirito Santo, Vitória, Brasil)
Resumo: O Programa de Extensão Follow-Up – Seguimento do Recém-Nascido de Alto Risco, desenvolvido no ambulatório de Follow-Up do Hospital Universitário Cassiano Antônio de Moraes (HUCAM-UFES), proporciona o acompanhamento longitudinal de crianças nascidas prematuras e de outros recém-nascidos de alto risco, envolvendo estudantes de diferentes períodos da graduação e equipe multiprofissional. Este relato de experiência tem como objetivo apresentar as contribuições da participação no programa para a formação acadêmica, profissional e pessoal dos estudantes, bem como os principais aprendizados, desafios e impactos observados durante a vivência extensionista. A experiência ocorreu por meio da inserção dos estudantes na rotina do ambulatório, com acompanhamento das consultas e participação, sob supervisão, em diferentes etapas do atendimento, além da integração com profissionais de diferentes áreas, participação em atividades formativas, produção científica e ações de aproximação com as famílias. A vivência possibilitou ampliar conhecimentos sobre puericultura de crianças prematuras, crescimento e desenvolvimento infantil, comunicação com famílias, trabalho multiprofissional e cuidado longitudinal. Também permitiu compreender a importância da participação familiar no cuidado e no seguimento ambulatorial, resultando na realização de encontros com responsáveis pelas crianças acompanhadas. A aproximação com a pesquisa contribuiu para a elaboração e aprovação de cinco trabalhos de iniciação científica. Entre os desafios, destacaram-se a adaptação inicial dos estudantes ao atendimento de crianças de maior vulnerabilidade e a existência de registros incompletos durante a transição para o prontuário eletrônico. A experiência evidenciou a extensão universitária como espaço de integração entre ensino, assistência, pesquisa e comunidade, contribuindo para uma formação médica mais humanizada, multiprofissional e comprometida com o acompanhamento longitudinal da criança e de sua família.
Palavras-chave: Extensão universitária; Prematuridade; Seguimento infantil; Cuidado multiprofissional; Participação familiar
INTRODUÇÃO
O acompanhamento de recém-nascidos prematuros e de outros pacientes classificados como de alto risco exige uma abordagem longitudinal, capaz de considerar não apenas as condições clínicas apresentadas ao nascimento, mas também o crescimento, o desenvolvimento e o contexto familiar e social no qual a criança está inserida. Nesse cenário, os ambulatórios de Follow-Up desempenham papel importante no acompanhamento dessas crianças e na identificação de alterações que possam demandar intervenção e acompanhamento especializado. O Programa de Extensão Follow-Up – Seguimento do Recém-Nascido de Alto Risco, desenvolvido no ambulatório de Follow-Up do Hospital Universitário Cassiano Antônio de Moraes (HUCAM-UFES), constitui um espaço de integração entre universidade, serviço de saúde e comunidade. O programa realiza o acompanhamento longitudinal de crianças nascidas prematuras e de outros recém-nascidos de alto risco, contando com a participação de profissionais de diferentes áreas da saúde e de estudantes em diferentes etapas da formação acadêmica.
A inserção dos estudantes nesse cenário permite uma aproximação com uma realidade assistencial que ultrapassa os conteúdos tradicionalmente abordados em sala de aula. O contato com crianças prematuras e suas famílias possibilita compreender as particularidades da puericultura dessa população, assim como os desafios relacionados ao desenvolvimento infantil, à continuidade do acompanhamento e à participação familiar no cuidado.
Nesse sentido, o presente relato tem como objetivo apresentar a experiência vivenciada por estudantes no Programa de Extensão Follow-Up, destacando as atividades desenvolvidas, os aprendizados obtidos, os desafios identificados e as contribuições da experiência para a formação acadêmica, profissional e pessoal. Busca-se também refletir sobre a importância da integração entre ensino, assistência, pesquisa e comunidade proporcionada pelo programa.
DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA (MODALIDADE RELATO DE EXPERIÊNCIA
A participação no Programa de Extensão Follow-Up ocorre no ambulatório de Follow-Up do HUCAM-UFES e envolve estudantes de diferentes períodos da graduação, desde o terceiro até o décimo segundo período, proporcionando uma convivência entre acadêmicos em diferentes etapas de formação. A inserção dos estudantes ocorre de maneira próxima à equipe assistencial, permitindo o acompanhamento da rotina do serviço e das consultas, além da participação em diferentes etapas do atendimento, sempre sob supervisão dos profissionais responsáveis. Durante a experiência, os estudantes puderam auxiliar na realização do exame físico, acompanhar avaliações clínicas e observar a condução das consultas. Essa vivência permitiu compreender, na prática, as particularidades do acompanhamento de crianças nascidas prematuras e de outros recém-nascidos de alto risco, especialmente no que se refere à avaliação do crescimento e do desenvolvimento.
Para os estudantes, a experiência possibilitou ampliar conhecimentos que ultrapassam a puericultura habitual. O acompanhamento das crianças permitiu observar a utilização e a interpretação de curvas de crescimento, a avaliação dos marcos do neurodesenvolvimento, a utilização de escalas de desenvolvimento e o acompanhamento das repercussões clínicas relacionadas à prematuridade. O contato direto com as crianças também possibilitou compreender que a avaliação do desenvolvimento infantil não se limita à aplicação de instrumentos ou à obtenção de dados objetivos. Durante os atendimentos, estratégias lúdicas, como brincadeiras, desenhos e diferentes formas de interação, são utilizadas para favorecer a aproximação com a criança e possibilitar a observação de aspectos motores, cognitivos, comportamentais e de interação social. Dessa maneira, os estudantes passaram a compreender o desenvolvimento infantil como um processo dinâmico, influenciado pelas condições clínicas e também pelo ambiente familiar e social no qual a criança está inserida.
Outro elemento marcante da experiência foi a atuação multiprofissional. A convivência com médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, psicólogos, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais possibilitou compreender concretamente a importância da integração entre diferentes áreas da saúde no acompanhamento de crianças de alto risco. A atuação conjunta permitiu observar a contribuição específica de cada profissional para o cuidado e para o desenvolvimento infantil, especialmente em um serviço inserido no contexto do Sistema Único de Saúde (SUS). A experiência multiprofissional também contribuiu para o desenvolvimento de habilidades de comunicação e trabalho em equipe. No cotidiano do ambulatório, tornou-se necessário adaptar a linguagem e a forma de transmitir informações de acordo com o profissional envolvido e, principalmente, com as características e necessidades de cada família.
O acompanhamento das famílias constituiu outra dimensão importante da experiência. Em diferentes situações, os estudantes tiveram contato com famílias em condições de maior vulnerabilidade social e emocional, algumas enfrentando dificuldades para compreender ou aceitar determinados diagnósticos, além de obstáculos relacionados à continuidade do acompanhamento e à adesão às condutas propostas. O contato com essas situações permitiu perceber que a assistência à criança não pode ser dissociada da assistência à família. A comunicação de diagnósticos delicados exige escuta qualificada, empatia, linguagem acessível e respeito às particularidades de cada núcleo familiar. A partir dessa percepção, foram desenvolvidas iniciativas voltadas à ampliação da participação dos responsáveis no cuidado.
Foram realizados encontros com os responsáveis pelas crianças acompanhadas no ambulatório, buscando fortalecer o diálogo entre equipe e família, ampliar a compreensão sobre as necessidades da criança e estimular uma participação mais ativa dos familiares no processo de cuidado e no seguimento ambulatorial. Essa experiência permitiu reconhecer os responsáveis não apenas como acompanhantes durante a consulta, mas como participantes fundamentais do cuidado e parceiros importantes da equipe de saúde. A experiência também proporcionou contato com a dimensão científica do programa. A participação na coleta, organização e análise de informações provenientes do acompanhamento longitudinal permitiu compreender a importância do registro sistematizado dos dados clínicos para a produção de conhecimento. A construção e alimentação de bancos de dados possibilitaram aos estudantes conhecer diferentes etapas da pesquisa científica, desde a organização das informações até a elaboração de trabalhos acadêmicos, relatos de casos e produções destinadas a congressos e periódicos. Nesse processo, uma das dificuldades encontradas foi a existência de prontuários incompletos, especialmente em decorrência do processo de transição para o prontuário eletrônico. Essa situação dificultou, em alguns momentos, a recuperação de determinadas informações clínicas e demonstrou, na prática, a importância da qualidade e da continuidade dos registros para o acompanhamento longitudinal e para a produção científica. Como resultado da aproximação entre extensão, assistência e pesquisa, foram aprovados cinco trabalhos de iniciação científica. Esse resultado demonstrou o potencial do ambulatório para a produção de conhecimento a partir da experiência assistencial e dos dados acumulados durante o acompanhamento das crianças. A participação dos estudantes nessas atividades também possibilitou o desenvolvimento de competências relacionadas à metodologia científica, à escrita acadêmica, à interpretação de dados e à divulgação dos resultados produzidos pelo programa.
Entre os desafios percebidos durante a experiência, destacou-se ainda o período inicial de adaptação dos novos extensionistas à abordagem de recém-nascidos e crianças pequenas. O contato com pacientes de maior vulnerabilidade exige segurança técnica, cuidado e sensibilidade, principalmente quando estão presentes condições clínicas complexas, como paralisia cerebral ou transtorno do espectro autista com necessidade elevada de suporte.
Diante disso, a experiência demonstrou a importância de uma preparação inicial dos estudantes, com orientações sobre as atividades, responsabilidades e formas adequadas de abordagem dos pacientes e de seus familiares. Como parte dessa preparação, o programa promove aulas e discussões de artigos publicados recentemente sobre a abordagem do recém-nascido de alto risco, além de possibilitar a integração dos estudantes com os diferentes profissionais que atuam no ambulatório.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU DISCUSSÕES, RESULTADOS E IMPACTOS
A experiência vivenciada no Programa de Extensão Follow-Up possibilitou compreender, de forma prática, que o acompanhamento da criança de alto risco exige uma perspectiva que ultrapasse a avaliação pontual de condições clínicas. O seguimento longitudinal permite acompanhar a criança ao longo do tempo, reconhecer mudanças em seu crescimento e desenvolvimento e identificar necessidades que podem surgir em diferentes momentos da infância. Nesse contexto, a experiência no ambulatório aproximou os estudantes de uma concepção de cuidado que considera a criança inserida em um contexto familiar e social. A observação dos atendimentos demonstrou que informações clínicas, isoladamente, não são suficientes para compreender todas as necessidades da criança. Aspectos relacionados à família, às condições sociais, à compreensão dos responsáveis sobre o diagnóstico e à possibilidade de continuidade do acompanhamento também interferem na assistência.
A atuação multiprofissional foi um dos principais elementos que permitiram visualizar essa complexidade. O contato com diferentes profissionais demonstrou que as demandas apresentadas pelas crianças de alto risco não podem ser compreendidas ou conduzidas por uma única área do conhecimento. A integração entre as diferentes categorias profissionais possibilitou aos estudantes reconhecer a complementaridade dos saberes e a importância da comunicação entre os membros da equipe. Essa vivência foi especialmente significativa por ocorrer em um serviço do SUS. O ambulatório permitiu observar, de forma concreta, como diferentes profissionais podem atuar de maneira articulada em torno das necessidades da criança e de sua família. Mais do que conhecer a função individual de cada profissional, os estudantes puderam compreender a importância do trabalho conjunto para a construção de um cuidado mais abrangente. A experiência também contribuiu para modificar a compreensão sobre o papel do médico no acompanhamento pediátrico. O contato longitudinal com as crianças demonstrou que a atuação médica não se limita à identificação de doenças ou à definição de tratamentos. O acompanhamento envolve prevenção, orientação, avaliação do desenvolvimento, comunicação, estabelecimento de vínculos e articulação com outros profissionais.
A utilização de estratégias lúdicas durante as consultas também trouxe aprendizados relevantes. Brincadeiras, desenhos e diferentes formas de interação não foram compreendidos apenas como recursos para tornar o atendimento mais agradável, mas como possibilidades de aproximação e de observação da criança em um contexto mais espontâneo. Isso permitiu aos estudantes perceber que a avaliação pediátrica exige sensibilidade para reconhecer diferentes formas de expressão infantil. Outro aprendizado importante esteve relacionado à comunicação com as famílias. Situações envolvendo diagnósticos delicados ou dificuldades na continuidade do acompanhamento evidenciaram que a transmissão de informações não deve ser compreendida apenas como um momento de repasse de dados técnicos. É necessário considerar o modo como cada família compreende a situação, suas dúvidas, seus receios e suas possibilidades de participação no cuidado.
Nesse sentido, os encontros realizados com os responsáveis representaram uma importante experiência de aproximação entre equipe, estudantes e famílias. A iniciativa permitiu ampliar o espaço de diálogo e reforçou a compreensão de que os responsáveis possuem papel ativo no cuidado da criança. A participação familiar, portanto, não se restringe à presença física durante as consultas, mas envolve a compreensão das necessidades da criança, a participação nas decisões e a continuidade do acompanhamento. A experiência também demonstrou que a extensão universitária pode funcionar como um espaço de integração entre diferentes dimensões da formação. A participação no atendimento aproximou os estudantes da realidade assistencial; a produção científica possibilitou transformar questões observadas na prática em conhecimento; e as atividades com as famílias fortaleceram a relação entre universidade, serviço e comunidade.
Os cinco trabalhos de iniciação científica aprovados constituem um resultado concreto dessa integração. A produção científica a partir da realidade do ambulatório permitiu aos estudantes compreender que a pesquisa não está dissociada da assistência, podendo surgir das necessidades identificadas durante o próprio cuidado. Ao mesmo tempo, as dificuldades relacionadas aos registros incompletos dos prontuários demonstraram que a produção científica e o acompanhamento longitudinal dependem da qualidade das informações registradas. Essa experiência contribuiu para que os estudantes compreendessem a responsabilidade envolvida no registro clínico e sua importância não apenas para a assistência individual, mas também para a organização do serviço e para a produção de conhecimento.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A participação no Programa de Extensão Follow-Up representou uma experiência significativa para a formação acadêmica, profissional e pessoal dos estudantes envolvidos. A inserção na rotina do ambulatório permitiu ampliar conhecimentos sobre o acompanhamento de crianças nascidas prematuras e de outros recém-nascidos de alto risco, especialmente em relação ao crescimento, desenvolvimento e acompanhamento longitudinal. Entre os principais aprendizados, destacaram-se o desenvolvimento da comunicação, da oratória, da capacidade de trabalhar em equipe e da abordagem humanizada de crianças e famílias. A experiência também proporcionou maior segurança na avaliação do desenvolvimento infantil e maior compreensão das repercussões da prematuridade ao longo da infância.
A experiência também evidenciou a importância da participação familiar no cuidado. Os encontros realizados com os responsáveis possibilitaram fortalecer o diálogo com as famílias e estimular uma participação mais ativa no cuidado e no seguimento ambulatorial. Nesse processo, os responsáveis passaram a ser compreendidos não apenas como acompanhantes, mas como participantes fundamentais e parceiros da equipe de saúde. Além dos impactos na formação dos estudantes, a experiência evidenciou a relevância do programa para a comunidade atendida. O acompanhamento especializado e longitudinal possibilita maior vigilância das condições clínicas e do desenvolvimento, favorece a identificação de alterações e permite o encaminhamento para diferentes áreas da equipe multiprofissional quando necessário. A integração entre os profissionais contribui para uma assistência mais articulada, enquanto a aproximação com os responsáveis favorece sua participação no cuidado e fortalece o vínculo com o serviço.
Os cinco trabalhos de iniciação científica aprovados e os encontros realizados com os responsáveis constituem resultados concretos desse processo, evidenciando que a experiência extensionista produz impactos tanto na formação acadêmica quanto na qualificação do cuidado oferecido às crianças e suas famílias. Dessa forma, a vivência no Programa de Extensão Follow-Up demonstra o potencial da extensão universitária como espaço de integração entre ensino, assistência, pesquisa e comunidade. Mais do que proporcionar conhecimentos técnicos, o programa contribuiu para a formação de estudantes capazes de compreender a criança em sua integralidade, valorizar o trabalho multiprofissional e reconhecer a família como parte essencial do processo de cuidado.