26 – 27 de nov. de 2026
Vitória
Fuso horário America/Sao_Paulo

ESTE É O NOSSO PATRIMÔNIO: Ações Educativas sobre o Patrimônio Cultural no Sítio Histórico de São Mateus/ES

Não agendado
20m
Espírito Santo (Vitória)

Espírito Santo

Vitória

Av. Fernando Ferrari, 514 - Goiabeiras, Vitória - ES.
Relato de Experiência Cultura, Linguagens, Memória e Construção de Identidades

Palestrantes

Prisciliana Costa Ventura Tiago Braga da Silva (UFES)

Descrição

Resumo: O presente relato de experiência apresenta as ações desenvolvidas pelo projeto de extensão “Este é o Nosso Patrimônio: Ações Educativas sobre o Patrimônio Cultural no Sítio Histórico Porto de São Mateus/ES”, iniciativa que articula educação patrimonial, memória social e participação comunitária na valorização do patrimônio cultural do norte do Espírito Santo. Desenvolvido em parceria entre a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), instituições públicas, organizações de apoio, a Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Pio XII e a comunidade local, o projeto busca fortalecer os vínculos entre a população e seu território, reconhecendo memórias, saberes e práticas culturais historicamente constituídos. Entre novembro de 2025 e agosto de 2026, foram realizadas ações de educação patrimonial em escolas públicas, participação em manifestações culturais, encontros formativos sobre arqueologia, escavação arqueológica educativa, oficinas de fotografia e cerâmica e atividades de observação de materiais líticos. As experiências envolveram estudantes da educação básica, professores, moradores, mestres da cultura popular e profissionais de diferentes áreas, promovendo espaços de diálogo entre conhecimentos acadêmicos e saberes comunitários. As atividades evidenciaram diferentes possibilidades de abordagem do patrimônio cultural, articulando práticas educativas, pesquisa, memória e participação social. Destaca-se a participação dos estudantes da EEEFM Pio XII em diferentes etapas do projeto, especialmente nas atividades arqueológicas, fotográficas e formativas. A experiência também valorizou a participação de moradores e detentores de saberes tradicionais como sujeitos ativos dos processos educativos. Os resultados observados indicam que a educação patrimonial pode constituir importante estratégia de aproximação entre universidade, escola e comunidade, contribuindo para a valorização das referências culturais e para a construção de narrativas compartilhadas sobre o território.

Palavras-chave: Educação patrimonial; Extensão universitária; Memória social; Patrimônio cultural; São Mateus.

INTRODUÇÃO
O patrimônio cultural constitui uma dimensão fundamental da memória social e das relações que os grupos humanos estabelecem com os territórios que habitam e constroem historicamente. Sua compreensão ultrapassa a perspectiva restrita de conservação de objetos, edificações ou sítios históricos, abrangendo também práticas, saberes, manifestações culturais e diferentes formas de apropriação social dos bens culturais, dimensões que revelam o caráter dinâmico e processual do patrimônio.
Nessa perspectiva, o patrimônio não se reduz à materialidade dos bens preservados, mas assume uma função eminentemente simbólica e identitária. Cruces (1998, p. 85, apud PEREIRO, 2006, p. 23) define o patrimônio cultural como "aquela representação simbólica das identidades dos grupos humanos, isto é, um emblema da comunidade que reforça identidades, promove solidariedade, cria limites sociais, encobre diferenças internas e conflitos e constrói imagens da comunidade". Essa compreensão aponta para o patrimônio como campo de disputas e negociações sociais, em que diferentes grupos afirmam pertencimentos, reivindicam memórias e produzem sentidos sobre o passado e o presente.
É nesse horizonte interpretativo que o Sítio Histórico Porto de São Mateus, localizado no município de São Mateus, no norte do Espírito Santo, adquire sua relevância histórica e cultural. Marques (2019, p. 67) descreve o sítio nos seguintes termos:
O Sítio Histórico do Porto é um dos bens culturais existentes na região de São Mateus. Trata-se de um conjunto de casarões construídos às margens do rio São Mateus, localiza-se na parte baixa da cidade e é compreendido como o responsável pelo desenvolvimento econômico, social e político da região. Tal importância motivou seu tombamento pelo Conselho Estadual de Cultura em 1976. (MARQUES, 2019, p. 67).

A relevância do sítio, portanto, não se limita ao valor arquitetônico das edificações preservadas, mas se estende ao papel que esse território desempenhou na constituição histórica da região. Sua trajetória é marcada pela presença e pela ação de diferentes grupos sociais, cujas memórias, práticas culturais e formas de ocupação territorial constituem referências para a compreensão da formação histórica e cultural do Espírito Santo. Mais do que um conjunto de edificações preservadas, o sítio se configura como um espaço vivo de memórias sobrepostas, tensões históricas e expressões culturais que ainda hoje articulam identidades e sentidos de pertencimento.
Nessa direção, Tolentino (2016, p. 45) ressalta que "é necessário compreender o patrimônio de uma forma crítica e não apenas contemplativa", sinalizando que a relação dos sujeitos com os bens culturais deve ser mediada pela reflexão, pela escuta e pelo reconhecimento das múltiplas perspectivas que coexistem em um mesmo território. Essa postura crítica implica responsabilidades concretas no campo da educação patrimonial. Para a autora,
[...] Cabe, portanto, ao educador patrimonial, criar possibilidades para uma construção coletiva do que é patrimônio cultural, a partir do diálogo e da negociação, sabendo que, nesse processo, necessariamente pode haver consensos, dissensos, dilemas e conflitos. (TOLENTINO, 2016, p. XX).

A prática educativa no campo do patrimônio não é um processo harmônico ou linear, mas envolve tensões constitutivas e disputas legítimas de sentido. O educador patrimonial, nessa perspectiva, não ocupa o lugar de transmissor de um saber instituído, mas o de mediador de processos coletivos de produção de significados sobre a memória, a identidade e o território.
É nessa perspectiva que se insere o projeto de extensão “Este é o Nosso Patrimônio: Ações Educativas sobre o Patrimônio Cultural no Sítio Histórico Porto de São Mateus/ES”. Desenvolvido pelo Departamento de Arquivologia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), o Banco do Nordeste, a Secretaria de Estado da Mulher, o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), a EEEFM Pio XII e a comunidade local, o projeto busca articular educação patrimonial, memória, cultura e participação social.
O presente relato sistematiza as experiências realizadas entre novembro de 2025 e agosto de 2026, destacando as ações desenvolvidas, os sujeitos envolvidos, os processos formativos e os aprendizados decorrentes da aproximação entre universidade, escola e comunidade.

DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA
As ações foram desenvolvidas no Sítio Histórico Porto de São Mateus, no norte do Espírito Santo. Participaram estudantes, professores e coordenadores das EEEFM Pio XII, Santo Antônio e Américo, pesquisadores e extensionistas da UFES, técnicos do IPHAN, profissionais convidados, moradores, artistas e grupos culturais tradicionais da comunidade do Porto.
O projeto foi organizado em quatro fases. Na Fase 1 (novembro de 2025), foram executadas três ações de educação patrimonial itinerante nas escolas da rede estadual, com visitas ao sítio, roteiros interpretativos e rodas de conversa sobre memória, tombamento e pertencimento. Na Fase 2 (novembro de 2025), foram realizadas duas ações de valorização do patrimônio imaterial afro-brasileiro: o Sarau da Resistência, reunindo estudantes, moradores e a Orquestra Sonore, e as atividades do 20 de Novembro, com apresentações dos Reis de Boi do Laudêncio, do Jongo de Santo Antônio, do Jongo de São Benedito e da Lira Mateense. Na Fase 3 (novembro de 2025 – março de 2026), encontros teóricos sobre arqueologia histórica precederam a prática de escavação do Sítio Escola. Na Fase 4 (abril – agosto de 2026), três oficinas aprofundaram a relação com o patrimônio: a Oficina de Fotografia "Quem tem medo do Porto?", com curadoria coletiva de exposição; a Oficina de Cerâmica, conduzida pela Mestra Dona Ângela de Jesus; e a Oficina com Material Lítico, ministrada pelo doutorando Vinícius Siqueira (UFMG) com 38 estudantes da EEEFM Pio XII.
As dez ações compõem um percurso formativo progressivo, articulando sensibilização, investigação científica e produção cultural autoral em uma concepção de educação patrimonial que integra o saber escolar, comunitário, passado e criação.

DISCUSSÕES, RESULTADOS E IMPACTOS
As dez ações realizadas evidenciaram que a aproximação entre escola, comunidade e patrimônio cultural é possível e necessária. A participação de estudantes em experiências como a escavação arqueológica e as oficinas temáticas favoreceu a construção de um olhar crítico e afetivo sobre o Sítio Histórico Porto de São Mateus, ampliando o sentido de pertencimento e identidade local.
A presença de mestres da cultura popular, arqueólogos e pesquisadores ao lado de professores e estudantes reforçou que o conhecimento sobre o patrimônio se constroi no encontro entre diferentes saberes. A exposição fotográfica e a oficina de cerâmica revelaram a potência criativa dos participantes ao ressignificarem o patrimônio como linguagem e expressão.
O projeto demonstrou que ações educativas situadas no próprio território patrimonial produzem aprendizagens mais significativas, contribuindo para a valorização do patrimônio cultural e para a formação de sujeitos mais conscientes de sua história.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
O projeto "Este é o Nosso Patrimônio" confirmou a viabilidade e a relevância das ações de educação patrimonial como prática extensionista articulada ao ensino e à pesquisa. Ao longo de dez meses, a experiência demonstrou que o patrimônio cultural, quando vivenciado como espaço de escuta, investigação e criação, torna-se instrumento efetivo de formação humana e cidadã.
A parceria entre UFES, IPHAN, escolas públicas e comunidade local foi determinante para a qualidade das ações, evidenciando que iniciativas dessa natureza exigem vínculos institucionais sólidos e comprometimento coletivo. Os resultados alcançados apontam para a necessidade de continuidade e ampliação do projeto, de modo a consolidar uma cultura de valorização do patrimônio cultural no município de São Mateus e na região norte do Espírito Santo.

REFERÊNCIAS

MARQUES, Adilson Bulado. Ensino de história local e patrimônio: o caso do Sítio Histórico Porto de São Mateus. 2019. Dissertação (Mestrado em Ensino na Educação Básica) — Centro Universitário Norte do Espírito Santo, Universidade Federal do Espírito Santo, São Mateus, 2019.
PEREIRO, Xenardo. (2006): Património cultural: o casamento entre património e cultura, em ADRA n.o 2. Revista dos sócios do Museu do Povo Galego, pp. 23-41.
TOLENTINO, Átila. O que não é educação patrimonial: cinco falácias sobre seu conceito e sua prática. In: IPHAN. Educação patrimonial: políticas, relações de poder e ações afirmativas. João Pessoa: IPHAN-PB; Casa do Patrimônio da Paraíba, 2016. – (Caderno Temático; 5), p.39-49.

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