26 – 27 de nov. de 2026
Vitória
Fuso horário America/Sao_Paulo

Travessia de saberes na formação intercultural de professores por meio do seminário de extensão Vermelho URUKÚ

Não agendado
20m
Espírito Santo (Vitória)

Espírito Santo

Vitória

Av. Fernando Ferrari, 514 - Goiabeiras, Vitória - ES.
Relato de Experiência Educação, Direitos Humanos, Diversidade e Inclusão Social

Palestrante

Marina Rodrigues Miranda

Descrição

Resumo: O Seminário Vermelho URUKÚ: “Seminário Integrado de Educação e Povos Indígenas em Contextos Culturais Capixaba e Amazônico como contributo à formação de professores”, ação extensionista da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), articulada ao Projeto Tupiabá, grupo de pesquisa em educação escolar indígena (CNPq/UFES), constitui uma experiência intercultural voltada à formação de professores a partir da interface entre universidade, escolas e comunidades. Fundamentado na crítica à colonialidade do ser e do saber (Quijano, 2005) e na desobediência epistêmica (Mignolo, 2021), o relato de experiência anuncia possibilidades de diálogo intercultural entre conhecimentos acadêmicos e saberes das Comunidades Tradicionais. A experiência ocorreu no circuito capixaba, em abril de 2026, nas vilas de Itaúnas e Regência. A sistematização da ação extensionista considerou os círculos de conhecimentos, rodas de conversa, comunicações, mostra fotográfica, exposições, círculos mitológicos, oficinas, atividades culturais e registros produzidos durante o evento. Participaram povos indígenas, professores, pesquisadores, estudantes da Educação Básica e sujeitos vinculados às comunidades e instituições educativas. As discussões evidenciaram a potência dos encontros interculturais para tensionar a monocultura do conhecimento e ampliar espaços de enunciação, articulando oralidades, memórias, territorialidades, linguagens artísticas e conhecimentos acadêmicos. Em diálogo com a perspectiva intercultural crítica, o seminário foi compreendido como espaço de interlocução e produção compartilhada de saberes, no qual universidade, escola e comunidades podem estabelecer relações menos hierarquizadas. A experiência aponta possibilidades de repensar a formação docente em perspectiva intercultural, reconhecendo territórios, oralidades, memórias e práticas comunitárias como dimensões formativas e lugares legítimos de produção de conhecimentos. Assim, o Seminário Vermelho URUKÚ reafirma a extensão universitária como território de encontro, aprendizagem coletiva e construção de outras relações entre diferentes formas de produção de conhecimentos.

Palavras-chave: Saberes indígenas; Interculturalidade; Processos educativos inclusivos e pluriepistêmicos.

INTRODUÇÃO
Em meio às experiências educativas construídas em territórios tradicionais, o “Vermelho URUKÚ: Seminário Integrado de Educação e Povos Indígenas em Contextos Culturais Capixaba e Amazônico como contributo à formação de professores” constitui-se como uma ação integrada de extensão da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), inscrita na Pró-Reitoria de Extensão e desenvolvida em articulação com o Tupiabá – Grupo de Pesquisa Ensino e Extensão em Educação Escolar Indígena (CNPq/UFES). A iniciativa anuncia uma trajetória coletiva de aproximação entre universidade, escolas, professores e comunidades, compreendendo os territórios como espaços educativos e de produção de saberes.
Nessa perspectiva, a formação docente é pensada a partir do encontro entre múltiplas experiências, memórias, oralidades e saberes, estabelecendo interfaces entre conhecimentos acadêmicos e conhecimentos produzidos nas comunidades. Um movimento fundamento na crítica à colonialidade do ser e do saber (QUIJANO, 2005), no qual as estruturas de poder constituídas historicamente a partir da experiência colonial permanecem atuantes na organização das relações sociais e nas formas de classificação e legitimação dos conhecimentos.
Em 2015, foi aprovado o Parecer CNE/CEB nº 14/2015, que estabelece Diretrizes Operacionais para a implementação da história e das culturas dos povos indígenas na Educação Básica, em decorrência da Lei nº 11.645/2008. O documento integra um conjunto de marcos normativos que, especialmente a partir da Constituição Federal de 1988 e das alterações promovidas na LDB pelas Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, passaram a reconhecer a diversidade étnico-cultural brasileira como dimensão constitutiva do direito à educação.
Nestes termos, romper com a pretensão de que determinado modo de conhecer possa ocupar a posição de medida universal de todas as demais formas de produção de conhecimento, é eixo estruturante do Grupo de Pesquisa Ensino e Extensão em Educação Escolar Indígena (Tupiabá). Um movimento coletivo que se propõe à desobediência epistêmica, proposto por Mignolo (2021) que permite problematizar quais conhecimentos estão presentes no currículo, quais sujeitos foram autorizados a produzir conhecimento, quais experiências foram reconhecidas como fontes legítimas de saber e quais formas de conhecer foram historicamente classificadas como válidas. Nesse sentido, esse relato de experiência direciona para a seguinte questão problematizadora: “Que outras possibilidades de pensar a formação de professores emergem quando o encontro intercultural entre conhecimentos indígenas e acadêmicos desloca a ideia de um conhecimento universal e nos convoca a reconhecer a pluralidade dos modos de conhecer, existir e produzir sentidos?”

DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA
Este estudo configura-se como um relato de experiência elaborado a partir da experiência extensionista do Seminário “Vermelho URUKÚ: Seminário Integrado de Educação e Povos Indígenas em Contextos Culturais Capixaba e Amazônico como Contributo à Formação de Professores” como espaço de interlocução intercultural e possibilidade de produção compartilhada de saberes. Para esse estudo apresenta-se as ações desenvolvidas no circuito Capixaba, no período de 13 a 18 de abril de 2026, constituído por dois circuitos territorialmente articulados, realizado nas Vilas de Itaúnas onde se localiza a aldeia indígena Jacó Pataxó e Regência que mantem entre pescadores, famílias tradicionais e narrativas locais, a memória do Caboclo Bernardo.
A sistematização da experiência considerou as diferentes atividades que compuseram a programação do seminário, entre elas círculos de conhecimentos, sessões de comunicação com apresentação de resumos expandidos, mostra fotográfica Urukú Ancestral, Exposição Mirá-Sá lauaretê, círculos mitológicos, oficinas e atividades integradoras. Foram mobilizados, para fins de sistematização e reflexão, documentos de organização do evento, registros das atividades, narrativas compartilhadas nos encontros, buscando acompanhar os sentidos, deslocamentos e aprendizagens constituídos durante a experiência vivenciada. Participaram das vivencias extensionistas articulada a partir do eixo universidade/escolas/ comunidades tradicionais, povos indígenas, pesquisadores, professores e estudantes da educação básica e diferentes sujeitos sociais comprometidos com a valorização das epistemologias dos povos originários.

DISCUSSÕES
Os resultados aqui apresentados constituem um recorte das propostas de articulação ensino-pesquisa e extensão ocorridas no território Capixaba durante o seminário “Vermelho URUKÚ: Seminário Integrado de Educação e Povos Indígenas em Contextos Culturais Capixaba e Amazônico como contributo à formação de professores” ocorrida em confluência do território da Vila de Itaúnas, em Conceição da Barra/ES com Regência Augusta, em Linhares/ES. Realizado por meio de vivências interculturais, propôs, assim, um espaço de circulação de saberes por meio de rodas de conversa, encontros com a Comunidade Indígena Jacó Pataxó na Vila de Itaúnas e com a comunidade da Vila de Regência.
Por meio das ações extensionistas, apresentadas na figura 1, as vivências interculturais foram planejadas para o Seminário Vermelho URUKÚ como forma de ruptura com uma única matriz epistemológica eurocêntrica, a fim de problematizar as condições históricas que fizeram com que a monocultura do conhecimento adquirisse estatuto de universalidade e outras formas de produção de conhecimento fossem silenciadas ou compreendidas somente como objetos de estudo.

As ações interculturais desenvolvidas durante o Seminário Vermelho URUKÚ, afirma-se de forma comprometida com a construção de outras relações entre universidade, escola e comunidades, trata-se de problematizar os próprios fundamentos que orientam o partilhamento coletivo de processos educativos inclusivos e pluriepistêmicos ensinar. As rodas de conversa, os encontros com professores indígenas e não indígenas, as experiências de oralidade, as atividades culturais, as exposições, as linguagens artísticas e os debates acadêmicos mobilizados na Vila de Itaúnas e de Regência, podem, nessa perspectiva, constituir espaços que permitam romper com as amarras epistêmicas da produção de conhecimentos hierarquizantes, lineares e estandartizados, na medida em que possibilitam que sujeitos historicamente posicionados nas margens dos regimes institucionalizados, reconheçam seu potencial quando as condições de interlocução permitem questionar as posições previamente estabelecidas entre quem ensina, quem aprende, quem pesquisa e quem é pesquisado.
Assim, o Seminário Vermelho URUKÚ, um espaço formativo em confluência coletiva conectados em propagações de conhecimentos integrando em conexos com os conhecimentos orgânicos produzidos por diferentes sujeitos com seus notórios saberes nestes dois territórios memoráveis, buscou articular extensão, pesquisa e formação docente a partir de uma perspectiva intercultural, que conecta rios e margens, territórios e instituições educativas, oralidades e escritas, memórias e currículos, vivências comunitárias e produção acadêmica, a fim de oportunizar diferentes espaços de enunciação e aprendizagens, problematizando, no próprio fazer educativo, as fronteiras que historicamente separaram o conhecimento acadêmico dos conhecimentos produzidos nas comunidades.

CONSIDERAÇÕES
O Seminário “ Vermelho URUKÚ” inscreve-se, portanto, em uma perspectiva que compreende a extensão como território de encontro, formação e produção compartilhada de conhecimentos, no qual os sujeitos envolvidos participam de uma experiência formativa construída na reciprocidade, reconhecendo nos territórios, nas oralidades, nas memórias, nas escolas, nas aldeias, nas comunidades e nas universidades lugares plurais de aprendizagem e de construção de saberes.

REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei nº 10.639, de 09 de janeiro de 2003. Altera a Lei 9.394/96, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e dá outras providências. Disponível em: <http//www.planalto.gov.br/ccivil/LEIS/2003/L10.639.htm>. Acesso em 26 de set. 2026.
BRASIL. Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Brasília, DF: Presidência da República, [2008]. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/l11645.htm. Acesso em: 26 set. 2026.
MIGNOLO, Walter D.; BRUSSOLO VEIGA, Isabella. Desobediência Epistêmica, Pensamento Independente e Liberdade Decolonial. Revista X, v. 16, n. 1, p. 24–53, 2021. DOI: 10.5380/rvx.v16i1.78142. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/revistax/article/view/78142. Acesso em: 20 set. 2026.
QUIJANO, Aníbal. Colonialidad do poder, eurocentrismo e América Latina. In LANDER, Eduardo (org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005a. Disponível em: https://biblioteca-repositorio.clacso.edu.ar/. Acesso em 19 set.2026.

Autor

Débora Lázara Rosa (Doutora em Educação em Ciências)

Co-autor

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