26 – 27 de nov. de 2026
Vitória
Fuso horário America/Sao_Paulo

Entre memórias, afetos e silêncios: um olhar da psicologia sobre a subjetividade de idosos institucionalizados

Não agendado
20m
Espírito Santo (Vitória)

Espírito Santo

Vitória

Av. Fernando Ferrari, 514 - Goiabeiras, Vitória - ES.
Relato de Experiência Saúde, Promoção da Qualidade de Vida e Desenvolvimento Comunitário

Palestrantes

Beatriz Oliveira (Centro Universitário FAESA) Lucimauro Palles da Silva (Centro Universitário FAESA)

Descrição

Resumo: O envelhecimento constitui um processo singular, atravessado por transformações biológicas, cognitivas, emocionais e sociais, mas também por histórias, afetos, vínculos e experiências construídas ao longo da vida. Este trabalho apresenta uma experiência de observação realizada por estudantes de graduação em Psicologia junto a idosos residentes em uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI), tendo como eixo a Neuropsicologia e a compreensão da subjetividade no envelhecimento. A atividade buscou aproximar os estudantes da realidade institucional, favorecendo um olhar que ultrapassasse alterações cognitivas ou limitações funcionais e reconhecesse cada idoso como sujeito de uma história singular. A metodologia fundamentou-se na observação participante, compreendida por Angrosino (2009) como estratégia qualitativa que possibilita conhecer pessoas e contextos a partir da aproximação e participação no ambiente investigado. Durante os encontros, foram observadas formas de comunicação, expressões emocionais, interações sociais, comportamentos, narrativas autobiográficas, lembranças, silêncios e manifestações relacionadas à identidade e ao sentimento de pertencimento, esses aspectos foram registrados em diários de campo individual no formato eletrônico. A experiência evidenciou que memória, linguagem, atenção e funções executivas não podem ser compreendidas isoladamente dos afetos e das experiências de vida. As narrativas dos idosos mostraram que recordar não significa simplesmente recuperar acontecimentos, mas reconstruir experiências carregadas de significados. Nessa perspectiva, Bosi (1994) compreende a memória da pessoa idosa como espaço privilegiado de preservação e reconstrução da experiência vivida. O contato com os residentes permitiu aos estudantes compreender que, por trás de possíveis perdas cognitivas, existem pessoas que continuam desejando ser escutadas, reconhecidas e respeitadas em sua singularidade. Conclui-se que a observação possibilitou uma aprendizagem técnica e, sobretudo, humana, contribuindo para uma formação psicológica baseada na escuta, na empatia, no respeito à autonomia e na valorização da história de vida.

Palavras-chave: Envelhecimento; Idosos institucionalizados; Observação participante; Neuropsicologia; Subjetividade.

INTRODUÇÃO
O envelhecimento é um processo complexo em que mudanças cognitivas, emocionais, corporais e sociais se articulam às histórias, aos vínculos e aos sentidos construídos ao longo da vida. Cada pessoa envelhece mobilizando lembranças, relações, perdas, conquistas, projetos, medos e desejos que conferem sentido à própria existência. Na Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI), a alteração de rotinas, da privacidade e das formas de exercer autonomia não elimina a identidade nem torna homogêneas as experiências dos residentes.
Nesse contexto, gestos, silêncios, objetos pessoais e narrativas podem expressar dimensões da subjetividade que não se reduzem aos instrumentos de avaliação. Para estudantes de Psicologia, aproximar-se dessa realidade também permite reconhecer que um olhar, uma fotografia guardada, uma história repetida, uma música ou a saudade de alguém comunicam modos singulares de existir. Para Bosi (1994), as lembranças permitem reorganizar a experiência e preservar elementos da identidade. Assim, este trabalho buscou compreender, por meio da observação e do contato com idosos institucionalizados, aspectos da subjetividade, das relações interpessoais, da memória, das emoções e da comunicação, articulando-os a conhecimentos introdutórios da Neuropsicologia.

OBJETIVOS
Geral: compreender, por meio da observação participante, expressões da subjetividade de idosos institucionalizados, considerando aspectos cognitivos, emocionais, relacionais e socioculturais, sob a perspectiva da Psicologia e da Neuropsicologia.
Especificamente, buscou-se observar formas de interação, comunicação e expressão emocional; compreender como histórias de vida, lembranças, vínculos e experiências participam da preservação da identidade; desenvolver competências de observação, escuta e acolhimento; e favorecer uma formação ética e humanizada, capaz de reconhecer a pessoa idosa para além de alterações cognitivas ou limitações funcionais.

DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA
Trata-se de um relato de experiência de abordagem qualitativa, exploratória e descritiva, desenvolvido por estudantes de Psicologia da FAESA, campus Vitória, em uma ILPI. A atividade pretendeu aproximar os acadêmicos do contexto institucional e favorecer a compreensão das expressões da subjetividade no envelhecimento, articulando o contato direto com os residentes aos conteúdos introdutórios de Neuropsicologia.
Adotou-se a observação participante, acompanhada de interações espontâneas e escuta dos residentes. Conforme Angrosino (2009), essa estratégia permite compreender uma realidade pela presença e pela interação com seus participantes. Observar, nessa perspectiva, implicou estar presente, perceber, escutar e buscar os significados atribuídos pelos próprios residentes às suas experiências. Alguns contatos ocorreram em duplas, mas cada estudante produziu um diário de campo eletrônico individual, posteriormente armazenado no banco de dados do projeto.
Nos encontros, observaram-se comunicação verbal e não verbal, manifestações afetivas, orientação no ambiente, evocação de lembranças, narrativas autobiográficas, atenção, iniciativa comunicativa, vínculos entre residentes e expressões de autonomia, identidade e pertencimento.
Os registros foram interpretados de forma contextualizada, evitando-se atribuir diagnósticos a comportamentos isolados. Manteve-se uma postura ética e respeitosa, reconhecendo os idosos não como objetos de observação, mas como sujeitos do processo de aprendizagem. A atividade integra o projeto guarda-chuva “Adoecimento Mental”, aprovado pelo CEPE/FAESA, CAAE nº 79678224.8.0000.5059, Parecer nº 6.823.439, sob responsabilidade do Prof. Lucimauro Palles da Silva.

RESULTADOS E IMPACTOS
1. Para além dos rótulos institucionais: singularidade e escuta
As manifestações dos residentes mostraram-se atravessadas pelo desenraizamento, pela perda de vínculos familiares e pela adaptação ao espaço coletivo. A aproximação sensível permitiu relativizar rótulos institucionais: A.B. (75 anos), descrito como agressivo e de difícil convivência, expressou luto pela mãe, religiosidade e desejo de ser ouvido; A.L. (76 anos), institucionalizado após uma queda que comprometeu sua mobilidade, relatou sofrimento pelo término de um relacionamento e pela perda de liberdade. Os casos reforçam que a observação participante exige confiança e atenção aos sentidos atribuídos pelos sujeitos às próprias vivências (Angrosino, 2009), acolhendo a verdade subjetiva e afetiva presente em suas narrativas (Bosi, 1994). Nesse processo, comportamentos antes interpretados de modo isolado puderam ser relacionados a perdas, vínculos e restrições de autonomia.
2. Memória, objetos e sustentação da identidade
As interações evidenciaram a memória como reconstrução ativa da identidade. Fotografias, desenhos, plantas, músicas e objetos pessoais funcionaram como “objetos biográficos” e favoreceram a continuidade da experiência (Bosi, 2003). M.O. (66 anos), mesmo com amnésia decorrente de trauma, mantinha o quarto decorado e valorizava o celular presenteado pela filha; J.V. (66 anos) encontrava na música de Amado Batista e no compartilhamento de histórias formas de expressar afetos, o desejo de viver e projetos relacionais. J.F. (98 anos), residente havia 22 anos e com histórico de vida nas ruas, recordava o trabalho na roça e desejava retomar o contato com a terra. S.M. (74 anos), leitor de biografias, manifestava incômodo com a superficialidade de algumas conversas e pretendia criar um podcast sobre o combate à misoginia. Tais experiências mostram que recordar organiza afetivamente o presente, preserva um sentido de continuidade e se contrapõe à impessoalidade institucional.
3. Impactos na formação acadêmica e no cotidiano da ILPI
Para os residentes, a presença sistemática dos estudantes ofereceu espaço de escuta, validação emocional e valorização da autoestima, além de subsidiar o planejamento de oficinas de arteterapia a partir de desejos por eles manifestados. Para os estudantes, a articulação entre observação e instrumentos como MEEM, GDS-15, UCLA e WHOQOL-OLD favoreceu uma avaliação contextualizada e humanizada. A combinação de técnicas também ampliou as possibilidades de confrontar informações e evitar leituras reducionistas, em consonância com Angrosino (2009). A experiência ensinou a considerar silêncios, respeitar a fadiga, ajustar o ritmo das interações e compreender a pessoa para além de diagnósticos ou declínios cognitivos.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
A experiência ampliou a compreensão dos estudantes sobre envelhecimento, Neuropsicologia e subjetividade. Mais do que observar comportamentos ou identificar funções cognitivas, permitiu reconhecer pessoas cujas trajetórias permanecem presentes em afetos, preferências, memórias e vínculos. Os resultados indicam que a escuta contextualizada ajuda a evitar interpretações reducionistas e reafirma o protagonismo da pessoa idosa, mesmo diante de limitações físicas, cognitivas ou sociais.
Na formação em Psicologia, a atividade fortaleceu competências de observação, registro, escuta e reflexão ética, aproximando a avaliação neuropsicológica da experiência concreta dos residentes. Por se tratar de uma experiência situada em uma ILPI, os achados não pretendem generalização; contudo, ressaltam a importância de práticas que preservem escolhas, objetos biográficos, vínculos e espaços de fala. Recomenda-se a continuidade de ações construídas com a participação dos idosos, como oficinas expressivas, e de registros sistemáticos que subsidiem intervenções sensíveis às singularidades. Cuidar no envelhecimento exige reconhecer, para além das perdas funcionais, a permanência do desejo, da memória, dos afetos e do direito de cada pessoa narrar a própria história.

REFERÊNCIAS
ANGROSINO, M. Etnografia e observação participante. Tradução de José Fonseca. Porto Alegre: Artmed, 2009.
BOSI, E. O tempo vivo da memória: ensaios de psicologia social. São Paulo: Ateliê editorais, 2003.
BOSI, E. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.
OLIVEIRA, Paulo de Salles. Sobre Memória e Sociedade. Revista USP, São Paulo, n. 98, p. 87-94, 2013. DOI: 10.11606/issn.2316-9036.v0i98p87-94.
SILVA, P. R. S.; MATHIAS, M. S. A etnografia e observação participante na pesquisa qualitativa. Ensaios Pedagógicos, Sorocaba, v. 2, n. 1, 2018.

Autores

Beatriz Oliveira (Centro Universitário FAESA) Samantha Cristiny Chaves (Centro Universitário FAESA)

Co-autores

Catarina Stange (Centro Universitário FAESA) Lucimauro Palles da Silva (Centro Universitário FAESA) Maria Eduarda Peixoto (Centro Universitário FAESA)

Materiais de apresentação

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