26 – 27 de nov. de 2026
Vitória
Fuso horário America/Sao_Paulo

Ciência que Move Políticas: popularização da ciência e advocacy em saúde no debate sobre obesidade no Brasil

Não agendado
20m
Espírito Santo (Vitória)

Espírito Santo

Vitória

Av. Fernando Ferrari, 514 - Goiabeiras, Vitória - ES.
Comunicação Oral Políticas Públicas, Gestão Social e Desenvolvimento Regional

Palestrante

Maria Eduarda Santos de Souza

Descrição

Resumo: O projeto de extensão Ciência que Move Políticas (LabCult/UFES e VigSUS/UFV) abordou a obesidade sob perspectiva interseccional, social e política, opondo-se a narrativas individualizantes. Objetivou-se fortalecer a popularização da ciência, a promoção da saúde e o advocacy para o aprimoramento de políticas públicas em alimentação e cuidado. A metodologia articulou a Narrativa Transmídia (Transmedia Storytelling), o desmembramento analítico de conteúdo (content repurposing) e a Aprendizagem Baseada em Projetos (PBL) em rede interinstitucional. Foram produzidos 14 Reels do glossário "Desmistificando Conceitos", 21 publicações de mobilização e 6 episódios de podcast com pesquisadoras, gestoras e parlamentares. As ações no Instagram acumularam 29.327 impressões, 15.448 contas alcançadas e 7,76% de taxa de engajamento, além de 238 reproduções no Spotify. Os resultados apontam a eficácia da tradução do conhecimento e do ecossistema transmídia no letramento cidadão em saúde, na formação discente crítica e na consolidação do diálogo entre ciência, gestão e sociedade.
Palavras-chave: Políticas Públicas; Popularização da Ciência; Advocacy em Saúde; Extensão Universitária; Obesidade.
INTRODUÇÃO
A popularização da ciência, entendida como conjunto de práticas voltadas à comunicação do conhecimento científico a públicos não especializados, é essencial para consolidar sujeitos mais críticos e informados, capazes de atuar como agentes de advocacy em saúde, sobretudo diante de temas socialmente sensíveis como a obesidade (Massarani; Moreira; Brito, 2002). No Brasil, análises recentes das políticas públicas voltadas à obesidade evidenciam como narrativas hegemônicas frequentemente responsabilizam o indivíduo, silenciando desigualdades de gênero, raça e classe que também determinam o adoecimento (Rodrigues; Miranda; Cabrini, 2023). Nesse cenário se inscreve a articulação entre a popularização da ciência e o advocacy em saúde nesta temática. Cunhado pela Carta de Ottawa (1986), documento fundante da promoção da saúde, o advocacy corresponde a uma de suas três estratégias básicas, ao lado da capacitação (enabling) e da mediação, voltada a colocar a saúde na agenda política e a mobilizar compromisso social em torno de seus determinantes. Comunicar cientificamente a obesidade como uma questão social (Brasil, 2025), e não apenas individual, é, portanto, também um ato político: uma forma de disputar sentidos e de exigir que direitos garantidos pela Constituição sejam efetivamente assegurados. De modo a subsidiar e fomentar a defesa dos princípios do SUS e dos direitos sociais, o projeto Ciência que Move Políticas, vinculado ao Programa de Extensão LabCult/UFES - Laboratório de Pesquisas e Práticas em Comida, Corpo, Cultura e Cuidado e em cooperação interinstitucional com o Grupo VigSUS/UFV - Grupo de Pesquisa Vigilância em Saúde no SUS, articula a popularização da ciência e o advocacy como ferramentas de transformação social, qualificando discentes, profissionais e a sociedade civil para a participação e controle social e fornecendo subsídios técnicos a parlamentares, gestores públicos e conselhos de direitos.
OBJETIVOS
O objetivo precípuo deste trabalho foi fortalecer a popularização da ciência, a promoção da saúde e o advocacy para o aprimoramento de políticas públicas, em especial nas áreas de alimentação, cuidado e combate às desigualdades sociais, integrando ensino, pesquisa, extensão e inovação social por meio de estratégias transmídia.
METODOLOGIA
A primeira temporada do projeto Ciência que Move Políticas foi intitulada Entre Corpos, Comidas e Políticas, cujo debate central foi a obesidade, a partir de uma perspectiva interseccional, social, territorial e política. O público do projeto abrange desde a sociedade civil, movimentos sociais e profissionais de saúde até gestores públicos, conselheiros de direitos e parlamentares. Para a operacionalização das ações, as equipes do LabCult/UFES e do VigSUS/UFV integraram-se em um único Grupo de Trabalho, organizado em duas fases: a primeira, no segundo semestre de 2025, dedicada à construção da base teórica e à concepção e estruturação dos produtos a partir de curadoria e síntese; a segunda, no primeiro semestre de 2026, concentrada na execução prática. As ações de popularização da ciência foram concebidas e desenvolvidas a partir do aporte teórico-metodológico da Narrativa Transmídia (Transmedia Storytelling) (Singhal e Rogers, 1999; Jenkins, 2008; Jagoda, Bennett e Sparrow, 2022) e da técnica de desmembramento analítico de conteúdo (content repurposing) (Mcgrane, 2012; Straus, Tetroe e Graham, 2013), traduzindo pesquisas e documentos técnicos em diferentes linguagens e formatos complementares, mobilizando ecossistemas digitais onde cada mídia expande e complementa os conceitos abordados. Nesta temporada, foram desenvolvidos os produtos: 1) uma série de episódios de podcast em formato de entrevistas hospedados no perfil LabCult UFES na plataforma Spotify; 2) um glossário temático audiovisual em formato de reels contendo os termos, vinculados aos temas de cada episódio de podcast, hospedado no perfil @labcult.ufes da plataforma Instagram; 3) uma campanha de mobilização em formato de stories e de posts no feed na plataforma Instagram. Como ação futura, estão previstos produtos de comunicação transmídia no perfil LabCult UFES na plataforma YouTube. De modo a promover a formação crítica e interdisciplinar dos discentes extensionistas, as ações de integração extensão-ensino-pesquisa-inovação foram ancoradas na aprendizagem baseada em projetos (project-based learning) (Thomas, 2000) no âmbito da cooperação interinstitucional em rede, articulando metodologias de pesquisa com a criação de tecnologias sociais de comunicação pública; realização de oficinas e encontros de formação discente sobre análise de políticas públicas, divulgação científica e técnicas de advocacy, sistematização e validação pedagógica continuada dos materiais produzidos; estruturação, organização técnica e manutenção de repositório digital público e permanente.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os produtos de popularização da ciência, advocacy em saúde e diálogo com a sociedade hospedados na plataforma Instagram foram o glossário audiovisual Desmistificando Conceitos, composto por 14 vídeos curtos em formato Reels, com a inserção dos termos: interseccionalidade, iniquidades em saúde, obesidade como questão social, estigma da obesidade, promoção da saúde de forma intersetorial, gênero, renda, racismo estrutural, proteção e cuidados integrados, vigilância em saúde, ambiente alimentar, espaços urbanos saudáveis, mobilização social e advocacy. A campanha de mobilização foi desenvolvida por meio de conteúdos publicados nos stories e no feed do Instagram, totalizando 21 publicações: 14 posts em formato carrossel, 5 em formato Reels e 2 publicações em formato de imagem estática. As publicações acumularam 29.327 visualizações e alcançaram 15.448 contas, evidenciando que a convergência de mídias e a diversificação de formatos ampliam a circulação do conhecimento científico (Jenkins, 2008). Além do alcance quantitativo expressivo, o registro de 1.199 interações ativas resultou em uma taxa de engajamento por alcance de 7,76%, valor superior a média estimada para perfis institucionais e do setor educacional, que costuma variar entre 1% e 3% (Rival, 2024; Hootsuite, 2024). Esse elevado grau de interatividade reflete a transição do público de espectadores passivos para agentes ativos de reprodução e debate, aspecto fundamental para o letramento em saúde e a justiça social (Jagoda, Bennett e Sparrow, 2022). No Spotify, foram hospedados 6 episódios de podcast em formato de entrevista, com participação de pesquisadoras, gestoras públicas, consultoras técnicas federais e parlamentares atuantes na temática. Em fase inicial de divulgação, somou 238 reproduções, destacando-se os conteúdos sobre interseccionalidade, estigma da obesidade e espaços urbanos saudáveis, que evidenciaram maior interesse do público por temas relacionados às desigualdades sociais como determinantes da obesidade. Todos esses achados corroboram a eficácia da Tradução do Conhecimento (Knowledge Translation) e da atomização de conteúdos no campo da Saúde Coletiva: o repacotamento analítico de evidências densas em produtos acessíveis e atrativos não reduz o rigor científico, mas desconstrói barreiras de linguagem, potencializando a ciência como ferramenta de controle social, advocacy e apoio à formulação de políticas públicas (Straus, Tetroe e Graham, 2013). A parceria entre as universidades federais favoreceu a complementaridade de saberes e constituiu uma experiência dialógica e formativa para as discentes, ao integrar pesquisa acadêmica, comunicação pública e análise de políticas. Além disso, a participação de parlamentares, gestores e profissionais de saúde na produção transmídia consolidou uma ponte de diálogo entre ciência, política e prática, estratégia essencial para aproximar a produção acadêmica da tomada de decisão (Choi et al., 2005).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os indicadores de desempenho digital demonstram a expressiva visibilidade e capilaridade do projeto Ciência que Move Políticas e ratifica o potencial do ecossistema transmídia para superar os modelos tradicionais e unidirecionais de difusão científica. Ao articular comunicação pública e advocacy em saúde, a iniciativa expandiu o debate acadêmico por meio de múltiplos suportes e linguagens, democratizando o conhecimento e atuando como estratégia efetiva de engajamento e letramento cidadão. A experiência evidenciou o potencial das mídias digitais e da popularização da ciência como estratégias de promoção da saúde e de fortalecimento da cidadania: ao traduzir conceitos como determinantes sociais da saúde, interseccionalidade e advocacy para linguagens do cotidiano digital, a iniciativa desafiou narrativas reducionistas e ofereceu à população instrumentos para compreender a obesidade como produto de desigualdades estruturais, e não como falha individual, ao abordar a questão sob perspectiva crítica, interseccional e orientada para políticas públicas. A articulação de pesquisadoras, gestoras públicas e parlamentares no podcast foi decisiva para consolidar essa ponte dialógica entre a produção científica, a gestão do SUS e a indução de proposições legislativas. Sob a ótica do mérito extensionista, a experiência concretizou a indissociabilidade entre ensino, pesquisa, extensão e inovação social. A cooperação em rede entre as universidades federais proporcionou uma formação discente crítica e interdisciplinar, demonstrando que a popularização da ciência é um instrumento indispensável de controle social, promoção da equidade e fortalecimento da cidadania.
REFERÊNCIAS
CHOI, Bernard C. K. et al. Can scientists and policy makers mix? The different worlds, dilemmas, and solutions. Journal of Epidemiology & Community Health, v. 59, n. 11, p. 916-920, 2005.

HOOTSUITE; MELTWATER. Digital 2024: global overview report. London: We Are Social; Meltwater, 2024. Disponível em: https://www.meltwater.com/en/global-digital-trends.

JAGODA, Patrick; BENNETT, Ireashia; SPARROW, Ashlyn. Transmedia stories: narrative methods for public health and social justice. Stanford: Stanford University Press, 2022.

MASSARANI, Luisa; MOREIRA, Ildeu de Castro; BRITO, Fátima (org.). Ciência e público: caminhos da divulgação científica no Brasil. Rio de Janeiro: Casa da Ciência/UFRJ, 2002.

RODRIGUES, Lorrany Santos; MIRANDA, Nayara Garcez; CABRINI, Danielle. Obesidade e interseccionalidade: análise crítica de narrativas no âmbito das políticas públicas de saúde no Brasil (2004-2021). Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 39, n. 7, e00240322, 2023.
STRAUS, Sharon E.; TETROE, Jacqueline; GRAHAM, Ian D. Knowledge translation in health care: moving from evidence to practice. 2. ed. Hoboken: Wiley-Blackwell, 2013.
THOMAS, John W. A review of research on project-based learning. San Rafael: The Autodesk Foundation, 2000.

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