Palestrante
Descrição
Resumo: A fluoretação da água de abastecimento público é uma das principais medidas coletivas de prevenção da cárie dentária, e o Brasil figura entre os países pioneiros nesta política, cuja primeira experiência ocorreu em Baixo Guandu, no Espírito Santo, em 1953. A garantia de seus benefícios depende da vigilância contínua dos teores de flúor na água, pela aplicação do princípio do heterocontrole. Nesse cenário, o projeto de extensão Rede VigiFlúor ES, do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Espírito Santo, apoia a coordenação estadual da Rede Brasileira de Vigilância da Fluoretação das Águas (Rede Vigiflúor). Este trabalho relata a experiência desenvolvida no projeto no ciclo de agosto de 2025 a julho de 2026, com o objetivo de descrever e refletir criticamente sobre suas ações extensionistas, sobretudo na frente de tradução do conhecimento e divulgação científica. Sob supervisão das coordenadoras do projeto, os discentes de pós-graduação coordenaram um grupo de graduandos em Odontologia responsável pela gestão do perfil no Instagram (@redevigifluores), produzindo publicações sobre a fluoretação das águas e implementando uma estratégia de engajamento. A vivência incluiu reuniões formativas, interlocução com secretarias de saúde, sistematização de dados e discussões para a implantação de um observatório estadual. Como principais resultados, o perfil alcançou cerca de 450 seguidores, cerca de três vezes o quantitativo do período anterior, com 16 publicações, dois artigos científicos, um trabalho de conclusão de curso e material didático. A experiência evidenciou o potencial da tradução do conhecimento e da extensão universitária como espaços de formação crítica e de mobilização social, contribuindo para a formação em saúde bucal coletiva e para o direito à água tratada e fluoretada.
Palavras-chave: Cárie Dentária; Comunicação em Saúde; Fluoretação; Saúde Bucal; Vigilância em Saúde.
INTRODUÇÃO
A cárie dentária permanece como um dos principais agravos em saúde bucal no Brasil e no mundo, com forte determinação social (Peres et al., 2019). Entre as estratégias de alcance coletivo para o seu enfrentamento, a fluoretação da água de abastecimento público destaca-se pela ampla cobertura populacional, pelo baixo custo e pelo caráter equitativo, uma vez que beneficia a população independentemente de sua condição socioeconômica ou de acesso a serviços odontológicos (Narvai, 2000).
O Brasil é um dos países pioneiros nessa política: a primeira cidade brasileira a fluoretar a água foi Baixo Guandu, no Espírito Santo, em 1953 (Oliveira; Freire, 2003). Posteriormente, a Lei Federal nº 6.050, de 24 de maio de 1974, tornou obrigatória a fluoretação das águas em sistemas públicos de abastecimento dotados de estação de tratamento (Brasil, 1974). Contudo, a simples existência da fluoretação não assegura seus benefícios: teores insuficientes reduzem o efeito preventivo, enquanto teores excessivos podem provocar fluorose dentária. Por isso, é imprescindível a vigilância sistemática das concentrações de flúor na água, o chamado heterocontrole, realizado pelo setor saúde de forma independente do controle feito pelo prestador do serviço (Porto; Esposti; Pacheco, 2026).
Para apoiar essa vigilância, foi constituída a Rede Brasileira de Vigilância da Fluoretação das Águas (Rede Vigiflúor), que opera o Sistema Vigiflúor, plataforma para cadastro de agentes, inserção de dados de fluoreto e produção de indicadores, complementar ao Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Siságua), tendo o Centro Colaborador do Ministério da Saúde em Vigilância da Saúde Bucal (CECOL/USP) como secretaria executiva (CECOL/USP, 2026). Nesse contexto insere-se o projeto de extensão Rede VigiFlúor ES (nº 3232), do Departamento de Saúde Coletiva (CCS/UFES), que apoia a coordenação estadual da Rede no Espírito Santo, na perspectiva da extensão como processo formativo e de integração entre ensino, pesquisa e serviço.
OBJETIVOS
Relatar e refletir criticamente sobre a experiência desenvolvida no projeto de extensão Rede VigiFlúor ES, no ciclo 2025–2026, com ênfase nas ações de tradução do conhecimento, divulgação científica e apoio à vigilância da fluoretação da água de abastecimento público no Espírito Santo, destacando os resultados, aprendizados, desafios e as contribuições da extensão universitária para a formação em saúde bucal coletiva e para o fortalecimento da Rede no estado.
DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA
Trata-se de um relato de experiência de natureza descritivo-reflexiva sobre as ações desenvolvidas no projeto de extensão Rede VigiFlúor ES no ciclo de agosto de 2025 a julho de 2026. O projeto, com três anos de existência e sediado no Departamento de Saúde Coletiva (CCS/UFES, campus Maruípe), articula ensino, pesquisa e extensão, com vínculo ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Odontológicas. No período, a equipe reuniu dez estudantes de graduação voluntários, dois de pós-graduação e três docentes, e desenvolveu ação de abrangência estadual, voltada a servidores dos setores de saúde e de meio ambiente e à comunidade em geral, em parceria com o CECOL/USP e a Rede Vigiflúor Nacional.
A vivência aqui relatada concentra-se na frente de divulgação científica, tradução do conhecimento e sistematização de informações. Sob supervisão das coordenadoras do projeto, os discentes de pós-graduação coordenaram um grupo de dez graduandos em Odontologia responsável pela gestão do perfil no Instagram (@redevigifluores). Essa atuação combinou a preceptoria dos estudantes com a produção de conteúdos sobre a fluoretação das águas de abastecimento público e sua vigilância.
Entre as principais atividades, destacam-se: (i) a produção de publicações e materiais de divulgação científica para as redes sociais; (ii) reuniões formativas periódicas, com discussão de textos e planejamento das ações; (iii) a implementação de uma estratégia de engajamento no Instagram; (iv) a interlocução com secretarias de saúde e grupos de trabalho em saúde coletiva; (v) o levantamento e a sistematização de dados sobre a cobertura e a qualidade da fluoretação no ES, subsidiando artigos e um trabalho de conclusão de curso; e (vi) as discussões para a implantação de um observatório estadual, com dados organizados desde 2015. Como formação complementar, a autora responsável concluiu o curso on-line “Atualização em Fluoretação da Água de Abastecimento Público”, da USP, e a equipe participou de reunião técnica sobre o monitoramento do Siságua.
Como recursos e instrumentos, utilizaram-se o perfil no Instagram e suas métricas, textos científicos, reuniões de equipe e as bases de informação da vigilância (Siságua e Sistema Vigiflúor), com atenção aos cuidados éticos no trato com instituições e informações.
RESULTADOS E IMPACTOS
No campo da comunicação e divulgação científica, o perfil @redevigifluores alcançou 452 seguidores em agosto de 2026, cerca do triplo do registrado no ano anterior, com ampliação do alcance e das impressões das publicações. No período, foram veiculadas 16 publicações, além de diversas divulgações de materiais científicos e reportagens por meio dos stories, caracterizando um trabalho de tradução do conhecimento científico para a linguagem do público. A produção do ciclo incluiu ainda a publicação de dois artigos científicos relacionados à fluoretação e à sua vigilância no estado (Porto; Esposti; Pacheco, 2026; Silva et al., 2026), a apresentação de quatro trabalhos em eventos, a elaboração de um trabalho de conclusão de curso em Odontologia e a participação na publicação do Guia de Recomendações para o Uso de Fluoretos no Brasil, do Ministério da Saúde (Brasil, 2026), que teve a coordenadora do projeto como coautora. O observatório estadual da fluoretação encontra-se em fase inicial de construção. Os principais resultados estão sintetizados no Quadro 1.
Quadro 1 Principais resultados do projeto Rede VigiFlúor ES (ago/2025–ago/2026).
Indicador Resultado
Abrangência territorial Estadual (municípios do Espírito Santo)
Equipe 10 graduandos, 2 pós-graduandos e 3 docentes
Seguidores no Instagram (@redevigifluores) 452 em ago/2026 (≈ 3× o ano anterior)
Publicações no Instagram 16 no período
Artigos científicos publicados 2
Trabalhos apresentados em eventos 4
Participação na elaboração de material técnico do MS 1 (Guia de Fluoretos, MS)
Pessoas alcançadas via perfil no instagram 480
Fonte: elaborado pelos autores com base no relatório do projeto (2026).
Entre os aprendizados, a experiência permitiu compreender, na prática, a vigilância da fluoretação e o monitoramento de sistemas como o Siságua, além de desenvolver competências de liderança, preceptoria e tradução da linguagem técnico-científica para o público. Evidenciou-se ainda a importância da pós-graduação na extensão, e da extensão na formação pós-graduada, ao inserir pós-graduandos na condução das ações e na preceptoria de graduandos.
Entre as dificuldades, destacaram-se a limitação de carga horária e a conciliação de horários da equipe, o acesso restrito a dados de alguns municípios e o pouco apoio da gestão estadual de meio ambiente, o que prejudicou, em particular, a capacitação de Agentes Vigiflúor, dependente da sensibilização do Núcleo de Vigilância em Saúde Ambiental da Secretaria de Estado da Saúde (SESA). Reconhecer tais entraves integra a reflexão crítica e aponta caminhos para o aprimoramento.
Como potencialidades, evidenciaram-se o alcance da divulgação científica como estratégia de mobilização social e a força das parcerias interinstitucionais. De maneira crítico-reflexiva, a experiência reafirmou a extensão universitária como espaço de articulação entre ensino, pesquisa e serviço e de compromisso social com o direito à saúde.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A participação no projeto Rede VigiFlúor ES mostrou-se uma experiência formativa relevante, ao articular a vigilância da fluoretação da água à sua aplicação prática e à comunicação com a sociedade, com contribuições para a formação em saúde bucal coletiva e para o fortalecimento da Rede no estado. Como proposições, recomenda-se a continuidade da divulgação científica nas redes sociais, o enfrentamento das barreiras de acesso a dados e de sensibilização da gestão, a concretização do observatório estadual e a publicação continuada de estudos sobre indicadores municipais, de modo a subsidiar a tomada de decisão em saúde e a garantia do direito à água tratada e fluoretada.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei nº 6.050, de 24 de maio de 1974. Dispõe sobre a fluoretação da água em sistemas de abastecimento quando existir estação de tratamento. Brasília, DF: Presidência da República, 1974.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Guia de recomendações para o uso de fluoretos no Brasil. 2. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2026.
CECOL/USP. Rede Vigiflúor. São Paulo: Faculdade de Saúde Pública, Universidade de São Paulo. Disponível em: https://cecol.fsp.usp.br. Acesso em: 21 set. 2026.
NARVAI, Paulo Capel. Cárie dentária e flúor: uma relação do século XX. Ciência & Saúde Coletiva, v. 5, n. 2, p. 381-392, 2000.
OLIVEIRA, Adauto Emmerich; FREIRE, Aprígio da Silva. Flúor e saúde coletiva: 50 anos de fluoretação da água no Brasil. Vitória: Edufes, 2003. 180 p.
PERES, Marco A. et al. Oral diseases: a global public health challenge. The Lancet, v. 394, n. 10194, p. 249-260, 2019.
PORTO, Ana Carla Layber; ESPOSTI, Carolina Dutra Degli; PACHECO, Karina Tonini dos Santos. Percepção dos trabalhadores da vigilância sobre o monitoramento independente da fluoretação da água no estado do Espírito Santo, Brasil. Ambiente & Água, Taubaté, v. 21, e3140, 2026. DOI: 10.4136/ambi-agua.3140.
SILVA, A. de C.; LOYOLA, E. dos A.; NETO, E. T. dos S.; PEREIRA, M. R. G.; PACHECO, K. T. dos S.; EMERICH, T. B.; DEGLI, C. D. E. Fluoretação das águas de abastecimento público: uma abordagem jornalística. REVISTA DELOS, [S. l.], v. 19, n. 77, p. e8771, 2026. DOI: 10.55905/rdelosv19.n77-126. Disponível em: https://ojs.revistadelos.com/ojs/index.php/delos/article/view/8771. Acesso em: 21 set. 2026.