Palestrante
Descrição
Resumo: Este relato descreve a experiência do projeto de extensão “Promoção da Segurança Alimentar e Nutricional em Instituições de Acolhimento de Alegre-ES” (SANIA), vinculado ao Centro de Ciências Exatas, Naturais e da Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo, Campus de Alegre. Iniciado em abril de 2023 e em desenvolvimento, o projeto atua em quatro instituições de acolhimento do município, que atendem crianças e adolescentes, idosos, mulheres adultas em processo de reabilitação e pessoas com deficiência. O objetivo é relatar as ações realizadas e as adaptações necessárias a cada público. As ações são periódicas, em geral quinzenais, e incluem avaliação e acompanhamento nutricional, atividades educativas sobre alimentação e nutrição e avaliação das Unidades Produtoras de Refeições e dos manipuladores de alimentos, com metodologia adaptada conforme as especificidades de cada grupo. Os discentes participam como bolsistas e voluntários no planejamento, execução e registro das ações, sob orientação docente. Até setembro de 2026, o projeto atendeu cerca de 121 pessoas e contou com 24 discentes de graduação, 4 deles bolsistas. Entre os impactos, destacam-se o acompanhamento nutricional longitudinal dos acolhidos, as parcerias intersetoriais, o apoio às práticas de higiene e de estocagem nas instituições e a formação dos discentes para lidar com públicos diversos. Entre os desafios, destacam-se o deslocamento até instituições distantes e a diversidade de públicos, que exige atividades lúdicas e linguagem simples. A experiência evidencia que a promoção da Segurança Alimentar e Nutricional em instituições de acolhimento requer ações contínuas e adaptadas, e contribui para a formação dos estudantes ao aproximar os conteúdos da graduação de situações reais.
Palavras-chave: Acolhimento Institucional; Educação Alimentar e Nutricional; Estado Nutricional; Extensão Universitária; Segurança Alimentar e Nutricional.
INTRODUÇÃO
A extensão universitária promove a interação entre a universidade e a sociedade, articulando saberes científicos e sociais e fortalecendo a relação entre ensino, pesquisa e extensão (BRASIL, 2018).
Nesse contexto, a promoção da Segurança Alimentar e Nutricional (SAN) em instituições de acolhimento é relevante diante das diferentes condições de vulnerabilidade dos indivíduos atendidos. Estudos apontam que a insegurança alimentar atinge domicílios com pessoas com deficiência em situação de extrema vulnerabilidade no Brasil e que a alimentação é parte importante do cotidiano de crianças e adolescentes em acolhimento institucional (MARKERT et al., 2021; BAGNI et al., 2023).
Assim, ações extensionistas voltadas à SAN aproximam a universidade de instituições que acolhem diferentes grupos, incluindo idosos,. Nesse cenário, este relato descreve a experiência do projeto de extensão “Promoção da Segurança Alimentar e Nutricional em Instituições de Acolhimento de Alegre-ES” (SANIA), registrado na Proex/Ufes sob o nº 3743 e vinculado ao Centro de Ciências Exatas, Naturais e da Saúde (CCENS), Campus de Alegre.
OBJETIVOS
Relatar a experiência do projeto SANIA em quatro instituições de acolhimento de Alegre-ES, descrevendo as atividades desenvolvidas, as vivências com os diferentes públicos atendidos e as contribuições da extensão universitária nesses contextos.
DESCRIÇÃO DA EXPERIÊNCIA
O SANIA teve início em abril de 2023 e permanece em desenvolvimento, sob coordenação da Profª Fabiana de Cássia Carvalho Oliveira. Atua em quatro instituições de acolhimento de Alegre-ES: Abrigo Institucional (AI), para crianças e adolescentes; Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI); Residência Inclusiva (RI), para pessoas com deficiência; e Comunidade Terapêutica (CT), para mulheres adultas em processo de reabilitação (Quadro 1).
As ações, voltadas à promoção da SAN e do Direito Humano à Alimentação Adequada (BRASIL, 2006), são periódicas, em geral quinzenais, com duração de uma a duas horas, e compreendem: (i) avaliação nutricional mensal dos acolhidos (antropométrica, clínica, bioquímica, dietética e aferição da pressão arterial); (ii) acompanhamento da evolução do estado nutricional; (iii) avaliação das Unidades Produtoras de Refeições (UPR) e dos manipuladores de alimentos (MA), com base nas boas práticas para serviços de alimentação (BRASIL, 2004); e (iv) intervenções individuais e em grupo com os acolhidos e os MA, por meio de ações de Educação Alimentar e Nutricional (EAN). Em todas as instituições, também confere os estoques e orienta a sua organização, realiza capacitações de higiene e elabora planos alimentares e cardápios, para ajudar a garantir os nutrientes necessários ao público acolhido. É importante ressaltar que o cuidado não se limita aos acolhidos: os trabalhadores e manipuladores de alimentos das instituições também recebem capacitações e orientações.
As ações de EAN são concebidas como um processo que considera os diferentes contextos e públicos (AMPARO-SANTOS, 2013). Realizadas de forma individual e em grupo, buscam estimular a participação e a interação dos acolhidos, com estratégias lúdicas e linguagem adaptadas a cada público: entre os idosos, por exemplo, as limitações de mobilidade e cognitivas exigem mais tempo e o apoio dos cuidadores. Os temas seguem o calendário, com ações mensais e em datas comemorativas.
Quadro 1 – Instituições parceiras, públicos atendidos e número de acolhidos. Alegre, ES, 2026.
Instituição Público atendido Acolhidos atualmente
Abrigo Institucional (AI) “Tia Mirtes” Crianças e adolescentes 5
ILPI Associação Luíza de Marillac Idosos 27
Residência Inclusiva (RI) – Associação Beneficente Dias Melhores (ABDM) Adultos e idosos com deficiência 10
Comunidade Terapêutica (CT) – Fazenda da Esperança São Francisco de Assis Mulheres adultas em processo de reabilitação 8
Total 50
Fonte: elaborado pelos autores (2026). Número de acolhidos referente a setembro de 2026.
Os discentes participam como extensionistas voluntários ou bolsistas, planejando e executando as atividades, registrando as ações e participando de reuniões periódicas, sob orientação da coordenadora. A vivência relaciona conteúdos de sala de aula às demandas das instituições e favorece a reflexão sobre a prática profissional (JUZWIAK; CASTRO; BATISTA, 2013).
RESULTADOS E IMPACTOS
Até setembro de 2026, o projeto atendeu cerca de 121 pessoas; atualmente, as instituições acolhem 50 (Quadro 1). Já participaram 24 discentes de graduação, a maioria voluntária: 4 foram bolsistas e, hoje, apenas 1 tem bolsa.
Ao longo dos anos, as ações de EAN incluíram, pinturas, jogos (monte o seu prato, pescaria, jogo dos sentidos), contação de histórias, oficinas de preparo de receitas saudáveis e aproveitamento integral dos alimentos, rodas de conversa, capacitações para manipuladores de alimentos, construção de hortas, atividades de mindfullness, oficinas de cuidado com a beleza e de combate ao racismo, aulas de computação, dentre outras. A Figura 1 exemplifica duas ações de EAN realizadas recentemente nas instituições.
Figura 1 – Atividades educativas do projeto: (a) jogo da memória no Abrigo Institucional; (b) dinâmica “corpo em construção” na Comunidade Terapêutica. Alegre, ES, 2026.
(a) (b)
Fonte: acervo do projeto (2026).
Para ampliar o cuidado e garantir a integralidade e intersetorialidade das ações extensionistas, o projeto firmou diversas parcerias ao longo dos anos. Com o curso de Psicologia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Alegre (FAFIA), foram realizadas rodas de conversa e atendimentos grupais com os acolhidos, respondendo à necessidade de apoio que muitas vezes acompanha essa vivência. Com a Agronomia da Ufes, foram montadas hortas para que as instituições cultivem verduras e as consumam mais. Somam-se a isso os exercícios aeróbicos conduzidos por um educador físico voluntário com as mulheres em reabilitação e a parceria com a Secretaria Municipal de Assistência Social do município, viabilizando o desenvolvimento das ações nos serviços de acolhimento.
O acompanhamento mensal (peso, pressão arterial, percentual de gordura corporal e hábitos alimentares) permitiu identificar precocemente desvios e orientar intervenções, inclusive individualizadas. Com os trabalhadores, as capacitações de higiene e o apoio à estocagem contribuem para melhorar as práticas na produção das refeições. Com as crianças, as atividades educativas são uma troca: os discentes ensinam e também aprendem.
Para os estudantes, a experiência permite aprender na prática os conhecimentos de sala de aula, lidar com públicos diversos e se preparar como futuros profissionais da saúde. Entre os desafios, destacam-se o custeio do transporte, pois duas instituições ficam fora da cidade, e a compreensão das ações por participantes com declínio cognitivo, enfrentada com atividades lúdicas e linguagem simples.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A vivência extensionista mostra que promover a SAN em instituições de acolhimento requer ações contínuas e sistemáticas, que articulem acompanhamento nutricional, educação alimentar e nutricional e avaliação do ambiente de produção das refeições. O projeto contribui para a formação dos discentes e para a promoção da SAN nas instituições e segue em desenvolvimento, com perspectivas de ampliação do escopo multidisciplinar.
REFERÊNCIAS
AMPARO-SANTOS, L. Avanços e desdobramentos do marco de referência da educação alimentar e nutricional para políticas públicas no âmbito da universidade e para os aspectos culturais da alimentação. Revista de Nutrição, Campinas, v. 26, n. 5, p. 595-600, 2013.
BAGNI, U. V. et al. Food insecurity in households with persons with disabilities in a situation of extreme vulnerability in Brazil: a secondary cross-sectional analysis. The Lancet Regional Health – Americas, v. 18, 100417, 2023. DOI: 10.1016/j.lana.2022.100417.
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução RDC nº 216, de 15 de setembro de 2004. Dispõe sobre Regulamento Técnico de Boas Práticas para Serviços de Alimentação. Brasília, DF: Anvisa, 2004.
BRASIL. Lei nº 11.346, de 15 de setembro de 2006. Cria o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional – SISAN com vistas em assegurar o direito humano à alimentação adequada e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 18 set. 2006.
BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. Resolução nº 7, de 18 de dezembro de 2018. Estabelece as Diretrizes para a Extensão na Educação Superior Brasileira. Brasília, DF, 2018.
JUZWIAK, C. R.; CASTRO, P. M. de; BATISTA, S. H. S. da S. A experiência da Oficina Permanente de Educação Alimentar e em Saúde (OPEAS): formação de profissionais para a promoção da alimentação saudável nas escolas. Ciência & Saúde Coletiva, v. 18, n. 4, p. 1009-1018, 2013.
MARKERT, J. et al. Food practices and nutrition of children and adolescents in residential care: a scoping review. Appetite, v. 167, 105640, 2021. DOI: 10.1016/j.appet.2021.105640.